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O movimento das paradas

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Em tempos atuais, Bolinha e sua turma não se limitariam a um simples cartaz pregado na porta de seu clubinho com a frase “menina não entra”. Para reforçar sua aversão à companhia das garotas, provavelmente ele e seus coligados fariam placas e marchariam pelo bairro, com alguém berrando seus ideais a bordo de um trio elétrico. E, para reforçar ainda mais sua filosofia de vida, o Clube do Bolinha realizaria essas caminhadas anualmente, procurando superar a adesão de simpatizantes das edições anteriores, conquistar apoio de alguma celebridade para legitimar a causa e um político para assegurar recursos a fim de deixar a manifestação ainda mais grandiosa e aproveitar o ensejo para uma autopromoção.  Hoje em dia é assim. Não basta participar de um clube, igreja, ou qualquer tipo de agremiação. Para mostrar a força de seu grupo social é preciso encher as ruas, fazer muito barulho, causar engarrafamentos, sujar as ruas com panfletos e demais materiais de divulgação e tentar arrumar u...

A semente da corrupção

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 "Gosto de levar vantagem em tudo, certo?" Os praticantes da Lei de Gérson são tão fiéis ao que acreditam quanto homens-bombas fundamentalistas. A máxima de levar vantagem em tudo é defendida com unhas e dentes, passando por cima até da valorização de entes queridos. Os exemplos são sortidos. Mas, citarei o que acontece nas portarias de casas de espetáculos. Não vou nem falar de gente que vai a shows caros de artistas famosos, mas de pessoas que se recusam a coçar o bolso para colaborar com eventos em que familiares e amigos participam ou organizam.  A mesquinhez dos gersonianos é sinistra. Com arrogância, empinam o nariz, inflam o peito e saem rebocando quem ou o que estiver impedindo sua entrada.  - Minha filha vai se apresentar!  - A senhora tem convite?  - Olhe o meu nome. Deve estar na lista! – a gersoniana responde arrogantemente, sem olhar nos olhos do funcionário.  Ao ser informada de que não existe lista, a criatura avare...

Porque sim não é resposta!

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Marcelo Tas como Telekid  Quem assistiu ou ainda assiste o programa infantil Castelo Rá-Tim-Bum imediatamente sabe o que acontece quando respondiam uma pergunta com “Porque sim!”. Imediatamente, surge o Telekid, personagem vivido por Marcelo Tas, para dar explicações a perguntas que muita gente tem preguiça ou não sabe responder como: por que as pessoas falam idiomas diferentes ou por que a cidade é cheia de gente? E, usando o seu controle remoto avô do Google, o Telekid respondia as questões de maneira simples e ilustrativa.  Hoje em dia, responder algum questionamento com “porque sim” ficou cada vez mais complicado. Com a facilidade de acesso às informações, qualquer criança minimamente alfabetizada e com acesso a internet tem todas as suas dúvidas sanadas em instantes.  Quando eu estava na sétima série, a professora de geografia pediu uma pesquisa sobre chuva ácida. Fui à biblioteca da escola vasculhar as enciclopédias, desatualizadas ano a ano. Estávamos...

Eu te amo

Sabe o que é ganhar o dia por causa de um gesto simples, mas tão profundo que toca bem no meio da alma e tem o poder de trazer a sensação de que viver vale todos os sacrifícios. Hoje, pela primeira vez, Amélie disse que me ama. Foi de um jeito tão natural e por isso tão lindo, mágico, até! Ela atravessada em cima de mim, mamando e me olhando fixamente nos olhos. Então, tirou o peito da boca e, sorrindo com o olhar disse: - Eu te amo, mamãe! Depois voltou a mamar, normalmente, e continuou a me encarar com ternura. Pôde assistir o meu sorriso besta e as lágrimas rolando de meus olhos. Enchi sua testa de beijos, disse que a amava muito, apertei ainda mais o abraço e me senti a criatura mais feliz do universo. Esse é um dos presentes que só a maternidade pode dar.

Medieval pós-moderno

Eu já estava desconfiada. Quando peguei o resultado do exame, minha suspeita foi confirmada e fez com que meu mundo desabasse. Acreditava estar tomando as precauções necessárias para evitar aquilo, porém, o que estava escrito no papel do laboratório contrariou minha certeza. Eu carregava dentro de mim algo extremamente indesejado, que me causava nojo intenso. Minha vontade foi correr até a primeira farmácia para eliminar de vez a razão de meu desespero. E foi isso que fiz. Chegando ao balcão, o meu pedido foi incisivo:  - Qual é o remédio mais potente contra lombriga e ameba que vocês têm?  O balconista da farmácia não entendia por que eu estava tão agoniada para eliminar os meus “hóspedes” nada queridos. Deve ter achado uma grande frescura da minha parte. Pegou uma caixa e disse que a droga que seria tiro e queda contra os bichos.  Em casa, fui desabafar com minha mãe. Afinal, lombriga e ameba se pega através da ingestão de alimentos ou água contaminados com...

Uma dieta mais cultural

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Mais um ano vai chegando ao fim e a turma não perde tempo de fazer suas promessas para os próximos 12 meses. Uma clássica é regular o peso através de hábitos mais saudáveis. Uns querem emagrecer, outros ganhar massa muscular, alguns apenas gostariam de gozar de mais saúde para ter a possibilidade de viverem muitos outros anos e fazer mais promessas. Todo mundo sabe o que precisa fazer e o quanto sua saúde agradecerá, mas são poucos os que realmente se arriscam.  Geralmente, para regular o peso se começa pela reeducação alimentar. Fugir das delícias pouco nutritivas às quais estamos acostumados para encarar pratos que nem sempre são atraentes logo de cara é duro, torturante. Por mais que a circunferência das nossas cinturas peça clemência, são raros aqueles que facilmente trocam o velho e gordo bife com batatas fritas por um peixe grelhado com ervas finas e uma salada crua. É difícil e sofrível acostumar com o cardápio mais leve e sadio.  E, assim como acontece com a...

Papai Noel de verdade

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Na manhã do dia 25 de dezembro, pulei da cama logo cedo. A ansiedade era tanta que segurei o xixi mais um pouquinho e corri para a janela. Lá, estava o meu sapato favorito. Sapato, não. Minha conga favorita, a mais colorida de todas, berrando toda a extravagância do início dos anos 1990. Afinal, ela seria o local onde Papai Noel colocaria o meu presente.  De longe, vi que o calçado estava vazio. Dentro tinha um papel dobrado, diferente da cartinha que eu havia deixado na noite anterior. O texto era mais ou menos assim: “Karol, infelizmente, por causa das enchentes que aconteceram no Rio de Janeiro, não pude trazer o seu presentinho para atender outras crianças. Continue se comportando. Esse será o nosso segredo. Papai Noel”. A caligrafia era idêntica à do meu pai. Só a assinatura se diferenciava, mais cursiva. Apesar da decepção, guardei a cartinha dentro do meu estojo do Menino Maluquinho, que seria o meu companheiro da terceira série.  - Por que Papai Noel tem a m...