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Miudezas

Sabedoria de ditos e dizeres Aprendidos na escola da vida e no grande livro do mundo Repetidos em momentos oportunos Passando adiante seu legado de ironias Da sua janela tinha o mundo que queria As conversas no batente ou na sombra do beco à tarde  Queria tanto ter gravado suas histórias E os conselhos de conversas inesperadas Não me lembro da nossa última despedida Também não soube do dia de sua partida Saudades do seu sorriso incompleto Mas cheio do deboche e da língua afiada Embora nunca tenha dito que me ama Nem sequer me dado um beijo de boa noite Em suas miudezas deixava claro que se importava Em cada benção que me dava nas chegadas

Envelhecedores

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A ditadura da beleza diz que precisamos ser jovens para sermos dignos de admiração. São produtos e mais produtos prometendo pele mais jovem, articulações mais jovens, cabelos mais jovens, energia de jovem, tudo para frear a decadência do envelhecimento. Porém, há certos produtos que são envelhecedores. Usá-los torna qualquer pessoa idosa instantaneamente. Anúncio com as maravilhas da Minancora Vamos começar pela centenária Pomada Minancora. Ela cheira a “antigamente”. Traduz bem os tempos austeros dos nossos pais e avós, que nunca tinham dinheiro para nada e precisavam se virar com pouco. Então, a mesma pomada tinha que servir para passar na cara, no sovaco, na virilha e no pé. Visitando o site, arrumam nome bonito para a pomada: antisséptico, adstringente, cicatrizante. Traduzindo: é para tratar creca. Pronto! Outro clássico: Leite de Rosas. O site do produto já anuncia que ele tem muita história para contar: desde 1929. Minha lembrança era meu pai usando como desodorante. O barulho d...

Bolo com queijo

Sabe aquelas lembranças que deixam nosso coração quentinho, que faz a gente acreditar que a vida se resume àquele momento gostoso? Nada de preocupação, nada de raiva ou frustração. Só aquele momento que deixa tudo certo dentro da gente. O meu é comer bolo comum com uma fatia de queijo por cima. Quando corto o pedaço de bolo e coloco, delicadamente, a fatia de queijo por cima, viajo no tempo. Não há sabor de bolo específico. Pode ser de chocolate, mesclado, laranja. O importante é que seja tipo caseiro, exaltando o que há de mais simples. Com a marca da forma enfarinhada na borda. Talvez uma casquinha arrancada, por ter sido desenformado ainda quente. E o queijo? Pode ser qualquer um. Até velho, meio ressecado! Mas, para deixar perfeito mesmo, é a fatia cortada à mão da peça, com as ondinhas dos dentes da faca, as bordas assimétricas. São aquelas pequenas imperfeições que deixam tudo único. Comer bolo com uma fatia de queijo é um costume que trago da minha infância, da época que meus pa...

Deixei de existir

E u só pensava em morrer. Mas tinha medo de deixar de existir. O desejo de morrer era como uma fuga dos meus fracassos. Embora com tantos sucessos, tantos tesouros invejáveis, eu me sentia uma fraude, uma mentira mal contada. Apesar de ter uma vida excelente: saúde, família, proteção, eu só queria morrer. Mas tinha medo de ir parar numa espécie de limbo, na escuridão do desconhecido. Imaginava várias formas de arrancar de mim o último suspiro. Cortar os pulsos? Não teria frieza para dilacerar minha carne lentamente. Horror a sangue. Enforcamento? A sensação desesperadora de sufocamento me freava qualquer rompante de coragem. Ou se não conseguisse ter sucesso, faltasse oxigenação no cérebro e seria condenada a vegetar, carregando a vergonha da tentativa frustrada marcada pelas sequelas. Overdose de medicamentos? Se não fosse a dose certeira e fosse parar numa UTI, intubada? Não! Resolvi me matar aos poucos. Fui me afastando lentamente do que amava. Fui me trancando na minha dor de exist...

A palavra tem poder

"Cuidado, menina! A palavra tem poder"! Minha mãe sempre me falava isso, quando eu falava que algo poderia sair errado. Era o modo dela me alertar sobre o peso de tudo aquilo que se diz. Tudo bem que vinha carregado de uma aura meio mística, tipo um encantamento capaz de atrair a energia do que foi proferido. Falar "desgraça", então…  Pior do que soltar o mais cabeludo dos palavrões. "É o nome da pelada". Embora minha mãe nunca soubesse me explicar quem era a tal da pelada nem o que faria de tão desgraçado. Hoje em dia, minha compreensão do poder da palavra vai além de se evocar sobrenaturalmente algo negativo ou positivo. A função de ser benção ou maldição está atrelada ao sentido político daquilo que se diz. Nada de política partidária, mas política de posicionamento, de ideologia, de como enxergar a si e ao outro.  A turma defensora do mundo mais chato após o politicamente correto é um excelente exemplo de como a palavra revela posicionamentos. Dia dess...

A paz

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A paz em meio ao turbilhão do tempo Quando me apresentei para entrar em exercício na Prefeitura de Ilhéus, fui perguntada sobre em qual setor gostaria de ser lotada. Respondi com muita segurança: “eu quero trabalhar”. Foram dois anos de luta, audiências com o Ministério Público Estadual, Ministério Público do Trabalho e administração municipal buscando a garantia do direito dos aprovados no Concurso Público de 2016. Diante da falta de perspectivas, foi formada uma comissão e impetrada uma Ação Popular. Para isso, precisavam de nomes representando a coletividade. Eu dei o meu, assim como outros dois colegas.  A minha nomeação não aconteceu por força da Ação Popular que versava sobre a Violação dos Princípios Administrativos nem pelo Mandado de Segurança que eu havia dado entrada. Foi a última boa notícia que consegui dar a meu pai antes de ele falecer três dias depois da publicação no Diário Oficial do Município. O clima de luto não permitiu a comemoração, mas estava feliz ...

Também quero viajar neste balão

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Até o momento em que escrevo este texto, tenho sete tatuagens. Volta e meia alguém me pergunta qual o significado de alguma delas. A primeira, feita assim que me casei em 2004, é a junção de um F e um K, bem na base das costas. Ela é bastante simples, já está meio gasta e distorcida pelas novas formas que meu corpo assumiu, mas segue com sua missão de contar a minha história, como todas as outras.  Há cerca de dois anos, conheci o trabalho da competente Dyala Lisieux, uma jovem tatuadora que montou seu estúdio em Ilhéus, o IOS Ink. De lá para cá, já fiz uma âncora cujo anete – aquele anel de cima por onde passa a corda – é um coração; umas flores feitas em um dia de promoção; uma ampulheta com um trecho da música Nada Sei (Enquanto o tempo me deixar passar); um broto de samambaia estilizado da cultura maori; uma pena de escrita e, por último, um balão colorido, que enfeita minha panturrilha direita.  Cada desenho tem seu significado. Nem que seja “vi o desenho, gost...