Aprendendo a amar


Nunca havia encarado amar como uma ação que se escolhe. Talvez movida pelos ideias românticos dos contos de fadas, amar seria algo transcendental, acima da razão. Mas, assistindo a um estudo bíblico, cheguei à conclusão de que temos controle sobre nossos sentimentos. Afinal, amar é um mandamento, o maior de todos. E, como toda ordem, exige uma ação. Sendo uma ação, podemos optar desempenhá-la.

Escolher amar não está entre as tarefas mais fáceis. Quando temos afinidades com alguém é natural termos afeição pelo outro. O engraçado é que cada um demonstra à sua maneira. Para uns, amar é saber que a pessoa está bem. Têm aqueles que encaram o amor como ficar sempre junto, cuidando. Contudo, quando há divergências ou somos ofendidos, o afeto é o sentimento que passa mais longe. É o momento em que entra o mandamento cristão. Ir além dos sentimentos humanos, carnais e buscar a santidade. Aí, só com muita oração e intervenção do Espírito Santo. Para os materialistas, sessões de terapia ajudam.

Deixar de amar também é complicado. Quando o sentimento é substituído pelo ódio ou desprezo, nosso coração sofre. Ou, se a pessoa amada não nos corresponde da maneira que desejamos, às vezes precisamos lutar para que o amor próprio supere a frustração. É um martírio, muito pior que qualquer castigo físico. A alma sofre, geme e, com o passar do tempo e muita determinação, tudo é renovado.

Minha mãe me ensinou a cultivar o amor. Além de zelar pelo meu bem-estar, dando-me carinho, sempre me protegendo e orientando ela foi a primeira pessoa a me mostrar que podemos, sim, fazer o amor nascer entre conflitos.

Quando estava na pré-escola, tinha uma professora que não simpatizava nem um pouco. Ela era nervosa, gritava, vivia de cara feia. Eu havia saído de uma escolinha de bairro, em que as tias eram doces em forma de gente. Como eu estava entre as pequenininhas da sala, era tratada com todos os mimos. Mas, na nova escola, aprendi logo o que é receber patadas coletivas.

Ir às aulas era um suplício. O meu rendimento não estava bom e, devido ao meu temperamento desaforado, minha mãe temia qual barbaridade eu poderia dizer à professora mal-humorada. Até tinha feito um versinho que prometi recitar no último dia de aula: “Tia Fulaninha nariz de fuinha, boca de sapo, cabelo de cutia”.

A raiva que eu sentia ao ir à escola motivou minha mãezinha a iniciar o processo de semeadura do amor. Todas as manhãs, ela me forçava levar flores para a professora. Eu relutava, porém ela me convencia:

- Soube que ela é nervosa porque tem muitas preocupações. Ela tem cinco filhos. Se eu só com você já perco a paciência, imagine ela.

Eu tentava compreender o lado da professora e levava o pequeno buquê colhido do quintal da minha casa. Quando eu entregava as flores, a cara amarrada dava lugar a um sorriso, que foi crescendo dia após dia. Dentro de mim, passei a relevar os gritos histéricos e ser mais tolerante por tentar compreender os motivos dela.

Tempos depois de o amor ter começado a ser semeado, minha mãe foi chamada para conversar após a aula. Ela mandou que eu brincasse com outros coleguinhas enquanto iria ouvir o que tinham a dizer de mim.

- Gracinha, sua filha é danada!

Após ouvir esta frase, minha mãe disse sentir um gelado por dentro e veio a certeza de que, no mínimo, eu tinha recitado o versinho antes do tempo.

- O que foi que Karoline fez? – perguntou aflita.

- Nada de mal! Ela é muito inteligente, está acompanhando a sala e participando muito mais. Superou nossas expectativas.

O alívio reinou dentro de minha mãezinha. Seu plano deu mais do que certo. O amor foi semeado, brotou e floresceu.

Comentários

Bel disse…
Ih, 5 filhos? Já sei quem é! E a frase "Sua filha é danada!" parece que estou vendo ela dizer! kkkkk

Mas, sem brincadeira, isso de "decidir amar" é sério. E traz em si um peso imenso, mas um resultado maior ainda!

Beijo, querida! Até sábado! \o/

Postagens mais visitadas deste blog

Aniversários

Nadando