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Mostrando postagens de 2013

Educação à mesa

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Minha educação para o momento das refeições foi além dos princípios básicos de etiqueta, como não falar de boca cheia e não apoiar os cotovelos sobre a mesa. Com minha família, aprendi a norma básica na hora de comer: trate bem quem te alimenta! Tenho dois tios garçons e sempre contaram as barbaridades causadas pela falta de civilidade de clientes e o espírito vingativo dos funcionários da cozinha e afins. Humilhações e reclamações em tom esnobe muitas vezes são revidados com cuspe na comida, canudos previamente inseridos no nariz e ouvidos, bifes bem passados pelo chão e demais nojeiras arquitetadas por mentes criativas e sentimentos feridos. Antes que sua arrogância deseje lembrar àquele que te serve sobre quem está pagando pela comida, é preciso avaliar os possíveis riscos que você pode se submeter. E não adianta querer se blindar falando de profissionalismo e apelar para ameaças ao gerente ou dono do estabelecimento. E por mais que Seu Madruga tenha ensinado que “a vingança ...

Minutos de Sabedoria

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Entre as lembrancinhas do retiro da igreja estava Minutos de Sabedoria, de Carlos Torres Pastorino. O livreto azul virou febre entre a garotada, funcionava como uma espécie de oráculo. Você mentalizava uma grande questão existencial e abria em uma página qualquer. E ta-dá: Eis que a grande resposta para os todos os mistérios da sua vida era descerrada! Ah, e se a mensagem não fosse satisfatória, bastava repetir o processo até aparecer a “grande revelação” que refrigerasse sua alma. O Minutos de Sabedoria trazia uma série de lições de moral e conselhos genéricos de autoajuda sobre motivação, relações humanas, autoestima e espiritualidade. Tudo em uma linguagem simples e supérflua. Funciona muito bem para pessoas extremamente solitárias por orgulho ou por circunstância. Afinal eram só minutos de sabedoria. Horas, dias, anos e uma vida repleta de sabedoria não cabem em 288 páginas de um livro de bolso. Após mais de uma década do retiro da igreja, deparei-me com duas jovens real...

Ameaça de amor

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Quando cursava o primário, tinha um garoto na minha sala que, atualmente, poderia ser chamado de hiperativo. A criatura não parava quieta, era uma matraca disparada, não ficava quieto por 10 minutos, nem conseguia focar em nada. Era repetente, andava todo molambento, sempre suado, despenteado e ainda por cima usava óculos fundo de garrafa. Tirava péssimas notas e sempre se metia em alguma encrenca. Vira e mexe estava visitando a sala da direção por quebrar alguma coisa, responder a professora ou brigar com um colega. Algumas meninas tinham nojo dele. Uma vez, juntaram pó de borracha, restos de lápis apontado e outras melecas para jogar na cabeça do maluquinho. Eu tinha pena, pois sabia que era órfão de mãe e ficava imaginando o quanto devia doer dentro dele. Na festa do Dia das Mães, quando ainda estávamos na pré-escola, ele levou uma tia como sua figura materna e um retrato dele dentro de um pires de louça (aquelas lembrancinhas cafonas que um monte de gente fez na infância), ...

Melhor que sua ex

Tomando banho, minha mente foi iluminada com as palavras das seguintes linhas: De todas as vantagens das redes sociais Reencontrar pessoas distantes Parentes que não vemos mais A velha turma da escola Amigos antigos do bairro Lembranças dos jogos de bola Doces momentos banais Mas o melhor dos presentes Que a internet poderia me dar É o prazer de comprovar A escolha que você fez E ver nos álbuns abertos Que estou melhor que sua ex O tempo não me fez bem Mas para ela foi muito mais cruel Parece um travesti pobre Que se esconde atrás de um véu E os cabelos maltratados Pela química e falta de tintura Dão aspecto de uma bruxa É gritante sua feiúra Pois depois de todos esses anos Entre minhas rugas e a gravidez A internet me brinda com o presente De ver que estou muito melhor que sua ex

Paguei por uma piriguete

E eu, na maior inocência, paguei por uma piriguete! Não faz muito meu tipo, mas eu ficaria mais feliz em não ter sido surpreendida, pois não só paguei, como consumi uma piriguete!  Fui lanchar na padaria e, ao pegar a comanda para pagar, estava anotado: um salgado e uma piriguete. Cada uma! O salgado, tudo bem. Mas e a tal piriguete? Eu, alheia ao mundo secular, vivendo em toda minha santidade e pureza, não sabia que a latinha de refrigerante 290 ml tinha essa má fama. E eu que até a achava tão simpática, pelo seu diminuto tamanho...  Fui pesquisar a origem do apelido. Não encontrei fontes acadêmicas, mas um site sobre o carnaval de Salvador falando das latinhas de cerveja "piriguete" como a sensação do momento. Uma arte dessas só podia ser fruto da criatividade irreverente dos soteropolitanos! Dizem que, como a latinha é pequena, pode-se pegar muitas de uma vez só. Aí, o conceito sobrou para os refrigerantes.

A asneira do burro educado

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Geralmente, burros são animais dóceis e submissos. Quando soltos, caminham sem pressa, com aquele olhar relaxado, distante, até meio triste. Talvez sejam tão introspectivos por uma crise de identidade, pois mesmo com tanto vigor físico, estão divididos entre a nobreza dos cavalos e a humildade dos jumentos. Parecem alheios ao resto do mundo, vivendo um dia após o outro no seu mundinho paralelo.  No bairro onde moro, vira e mexe aparece algum burro solto na rua, por irresponsabilidade e desmazelo dos seus donos. Às vezes, aparecem em grupos, dividindo a pista com carros, ônibus e motos, tomando pedradas de meninos perversos, mordiscando o mato alto dos canteiros e revirando latões de lixo.  Dia desses, enquanto eu e meu marido levávamos nossa filha à escola, nos deparamos com uma dupla de burros em nossa rua estreita. Apesar da aparente docilidade dos animais, ficamos um pouco tensos ao passar perto deles. Mas, um deles tinha um olhar diferente, aflito. Ficava sacudi...

O movimento das paradas

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Em tempos atuais, Bolinha e sua turma não se limitariam a um simples cartaz pregado na porta de seu clubinho com a frase “menina não entra”. Para reforçar sua aversão à companhia das garotas, provavelmente ele e seus coligados fariam placas e marchariam pelo bairro, com alguém berrando seus ideais a bordo de um trio elétrico. E, para reforçar ainda mais sua filosofia de vida, o Clube do Bolinha realizaria essas caminhadas anualmente, procurando superar a adesão de simpatizantes das edições anteriores, conquistar apoio de alguma celebridade para legitimar a causa e um político para assegurar recursos a fim de deixar a manifestação ainda mais grandiosa e aproveitar o ensejo para uma autopromoção.  Hoje em dia é assim. Não basta participar de um clube, igreja, ou qualquer tipo de agremiação. Para mostrar a força de seu grupo social é preciso encher as ruas, fazer muito barulho, causar engarrafamentos, sujar as ruas com panfletos e demais materiais de divulgação e tentar arrumar u...

A semente da corrupção

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 "Gosto de levar vantagem em tudo, certo?" Os praticantes da Lei de Gérson são tão fiéis ao que acreditam quanto homens-bombas fundamentalistas. A máxima de levar vantagem em tudo é defendida com unhas e dentes, passando por cima até da valorização de entes queridos. Os exemplos são sortidos. Mas, citarei o que acontece nas portarias de casas de espetáculos. Não vou nem falar de gente que vai a shows caros de artistas famosos, mas de pessoas que se recusam a coçar o bolso para colaborar com eventos em que familiares e amigos participam ou organizam.  A mesquinhez dos gersonianos é sinistra. Com arrogância, empinam o nariz, inflam o peito e saem rebocando quem ou o que estiver impedindo sua entrada.  - Minha filha vai se apresentar!  - A senhora tem convite?  - Olhe o meu nome. Deve estar na lista! – a gersoniana responde arrogantemente, sem olhar nos olhos do funcionário.  Ao ser informada de que não existe lista, a criatura avare...

Porque sim não é resposta!

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Marcelo Tas como Telekid  Quem assistiu ou ainda assiste o programa infantil Castelo Rá-Tim-Bum imediatamente sabe o que acontece quando respondiam uma pergunta com “Porque sim!”. Imediatamente, surge o Telekid, personagem vivido por Marcelo Tas, para dar explicações a perguntas que muita gente tem preguiça ou não sabe responder como: por que as pessoas falam idiomas diferentes ou por que a cidade é cheia de gente? E, usando o seu controle remoto avô do Google, o Telekid respondia as questões de maneira simples e ilustrativa.  Hoje em dia, responder algum questionamento com “porque sim” ficou cada vez mais complicado. Com a facilidade de acesso às informações, qualquer criança minimamente alfabetizada e com acesso a internet tem todas as suas dúvidas sanadas em instantes.  Quando eu estava na sétima série, a professora de geografia pediu uma pesquisa sobre chuva ácida. Fui à biblioteca da escola vasculhar as enciclopédias, desatualizadas ano a ano. Estávamos...

Eu te amo

Sabe o que é ganhar o dia por causa de um gesto simples, mas tão profundo que toca bem no meio da alma e tem o poder de trazer a sensação de que viver vale todos os sacrifícios. Hoje, pela primeira vez, Amélie disse que me ama. Foi de um jeito tão natural e por isso tão lindo, mágico, até! Ela atravessada em cima de mim, mamando e me olhando fixamente nos olhos. Então, tirou o peito da boca e, sorrindo com o olhar disse: - Eu te amo, mamãe! Depois voltou a mamar, normalmente, e continuou a me encarar com ternura. Pôde assistir o meu sorriso besta e as lágrimas rolando de meus olhos. Enchi sua testa de beijos, disse que a amava muito, apertei ainda mais o abraço e me senti a criatura mais feliz do universo. Esse é um dos presentes que só a maternidade pode dar.

Medieval pós-moderno

Eu já estava desconfiada. Quando peguei o resultado do exame, minha suspeita foi confirmada e fez com que meu mundo desabasse. Acreditava estar tomando as precauções necessárias para evitar aquilo, porém, o que estava escrito no papel do laboratório contrariou minha certeza. Eu carregava dentro de mim algo extremamente indesejado, que me causava nojo intenso. Minha vontade foi correr até a primeira farmácia para eliminar de vez a razão de meu desespero. E foi isso que fiz. Chegando ao balcão, o meu pedido foi incisivo:  - Qual é o remédio mais potente contra lombriga e ameba que vocês têm?  O balconista da farmácia não entendia por que eu estava tão agoniada para eliminar os meus “hóspedes” nada queridos. Deve ter achado uma grande frescura da minha parte. Pegou uma caixa e disse que a droga que seria tiro e queda contra os bichos.  Em casa, fui desabafar com minha mãe. Afinal, lombriga e ameba se pega através da ingestão de alimentos ou água contaminados com...