É um porre
O líquido levemente amarronzado preenchia o pequeno cálice devagar. Sua consistência era menos densa do que eu imaginava. Finalmente, após anos de curiosidade, eu poderia provar a bebida enigmática, que provocava a minha imaginação.
-Êpa, você está amamentando. Não pode beber!
- Qual é? Só uma bicadinha para satisfazer a curiosidade.
Tomei o cálice e senti pela primeira vez o aroma do licor. Eu imaginava algo parecido com chocolate, mas o perfume gostoso não me desapontou. Virei lentamente o líquido para que tocasse apenas a ponta da língua. E, a princípio, veio a decepção. Como toda bebida alcoólica, o amargor seguido da queimação. Mas, segundos depois, o sabor ficou bom, adocicado, bem diferente do que eu concebia.
- Ah, Amarula é isso, então! Pronto, agora minha curiosidade foi morta!
Quando eu ia a algum restaurante, a garrafa da tal Amarula me chamava atenção. O rótulo com o elefantão invocado e as frutinhas amarelas parecia com a capa de um livro infantil. O vidro marrom escuro não me dava uma idéia da cor precisa do líquido, mas eu presumia que seria algo denso, como creme deleite com achocolatado.
Há alguns anos, assisti a um documentário que mostrava o que era a tal amarula, uma fruta africana adorada por elefantes. Não apenas os paquidermes se fartavam das frutas, mas uma galera da floresta também curtia o barato que ela causava. Elefantes, macacos, todos se empanturrando e se embebedando com a frutinha. Sim, embebedando. Era muito engraçado ver os bichos travados, cambaleantes, jogados no chão da savana.
Agora, mais engraçado que os “meoteiros” da floresta é eu me lembrar de quando fiquei bêbada pela primeira vez. Eu tinha uns seis para sete anos e meus pais estavam recebendo meus tios. Criança é uma espécie de bichinho selvagem, então a minha reação não foi muito diferente dos animais ébrios. Aí, além dos tira-gostos, rolou também um vinho para molhar a goela. Mas não era nenhum chileno, argentino ou português requintado. Era o popular Dom Bosco, na versão econômica garrafão de cinco litros.
Enquanto meus pais conversavam, eu fazia o favor de ajudá-los a repor o vinho em seus copos, bebendo o restinho discretamente. De dedinho em dedinho de vinho, a minha percepção de mundo foi alterando. A cabeça ficou leve, os movimentos menos firmes e o chão parecia fugir dos meus pés, como se fosse um tapete sendo puxado.
- Painho, eu tô tonta! – esse foi o início do meu pedido de socorro.
- Menina, quanto vinho você tomou? –momento em que o alerta de paternidade responsável foi acionado.
Eu estendi minha mão para que ele pudesse me levar até a sala, onde havia uns almofadões. O teto rodopiava e eu sentia que o que estava em minha barriga poderia sair a qualquer momento. E lancei a frase clássica:
- Eu não bebo mais!
Meu pai sorriu e foi até a cozinha buscar umas rodelas de batata para pôr em minha testa. Também veio com algodões embebidos em vinagre e passou nos meus pulsos.
- Eu vou ficar boa, pai? Eu não agüento mais ver tudo rodando. É igual à Xícara Maluca!
Tentei me levantar para explicar o que sentia , balançando com as mãos no ar. Mas na hora, foi como se tivessem instalado uma sirene na minha cabeça. Parei para tentar me localizar espacialmente, tive uma vertigem e caí sentada.
- Vai ficar boa, sim. Mas que sirva de lição. Você é muito pequena para ficar bêbada, ficar de porre – respondeu meu pai, passando a mão em meus cabelos e soltando um riso piedoso.
Naquele momento infeliz, eu mais que concordei com o conselho. Só me esqueci das sábias palavras paternas uns 10 anos depois. Mas aí já é outra história, maior e pesada, como o elefante da Amarula.
-Êpa, você está amamentando. Não pode beber!
- Qual é? Só uma bicadinha para satisfazer a curiosidade.
Tomei o cálice e senti pela primeira vez o aroma do licor. Eu imaginava algo parecido com chocolate, mas o perfume gostoso não me desapontou. Virei lentamente o líquido para que tocasse apenas a ponta da língua. E, a princípio, veio a decepção. Como toda bebida alcoólica, o amargor seguido da queimação. Mas, segundos depois, o sabor ficou bom, adocicado, bem diferente do que eu concebia.
- Ah, Amarula é isso, então! Pronto, agora minha curiosidade foi morta!
Quando eu ia a algum restaurante, a garrafa da tal Amarula me chamava atenção. O rótulo com o elefantão invocado e as frutinhas amarelas parecia com a capa de um livro infantil. O vidro marrom escuro não me dava uma idéia da cor precisa do líquido, mas eu presumia que seria algo denso, como creme deleite com achocolatado.
Há alguns anos, assisti a um documentário que mostrava o que era a tal amarula, uma fruta africana adorada por elefantes. Não apenas os paquidermes se fartavam das frutas, mas uma galera da floresta também curtia o barato que ela causava. Elefantes, macacos, todos se empanturrando e se embebedando com a frutinha. Sim, embebedando. Era muito engraçado ver os bichos travados, cambaleantes, jogados no chão da savana.
Agora, mais engraçado que os “meoteiros” da floresta é eu me lembrar de quando fiquei bêbada pela primeira vez. Eu tinha uns seis para sete anos e meus pais estavam recebendo meus tios. Criança é uma espécie de bichinho selvagem, então a minha reação não foi muito diferente dos animais ébrios. Aí, além dos tira-gostos, rolou também um vinho para molhar a goela. Mas não era nenhum chileno, argentino ou português requintado. Era o popular Dom Bosco, na versão econômica garrafão de cinco litros.
Enquanto meus pais conversavam, eu fazia o favor de ajudá-los a repor o vinho em seus copos, bebendo o restinho discretamente. De dedinho em dedinho de vinho, a minha percepção de mundo foi alterando. A cabeça ficou leve, os movimentos menos firmes e o chão parecia fugir dos meus pés, como se fosse um tapete sendo puxado.
- Painho, eu tô tonta! – esse foi o início do meu pedido de socorro.
- Menina, quanto vinho você tomou? –momento em que o alerta de paternidade responsável foi acionado.
Eu estendi minha mão para que ele pudesse me levar até a sala, onde havia uns almofadões. O teto rodopiava e eu sentia que o que estava em minha barriga poderia sair a qualquer momento. E lancei a frase clássica:
- Eu não bebo mais!
Meu pai sorriu e foi até a cozinha buscar umas rodelas de batata para pôr em minha testa. Também veio com algodões embebidos em vinagre e passou nos meus pulsos.
- Eu vou ficar boa, pai? Eu não agüento mais ver tudo rodando. É igual à Xícara Maluca!
Tentei me levantar para explicar o que sentia , balançando com as mãos no ar. Mas na hora, foi como se tivessem instalado uma sirene na minha cabeça. Parei para tentar me localizar espacialmente, tive uma vertigem e caí sentada.
- Vai ficar boa, sim. Mas que sirva de lição. Você é muito pequena para ficar bêbada, ficar de porre – respondeu meu pai, passando a mão em meus cabelos e soltando um riso piedoso.
Naquele momento infeliz, eu mais que concordei com o conselho. Só me esqueci das sábias palavras paternas uns 10 anos depois. Mas aí já é outra história, maior e pesada, como o elefante da Amarula.
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