De quem eram os caracóis?
Já tentei aprender esportes e nunca me dei bem em nenhum. Até pra correr eu tenho falta de coordenação! Para tocar instrumentos tenho certa facilidade, aprendo com bastante rapidez, mas me falta disciplina. Dançar piorou. Se não acerto respirar e correr, que dirá movimentar braços, pernas e quadris em direções opostas. Cozinhar é uma atividade que só exerço quando estou de veneta. Faço até uns pratos gostosinhos (brigadeiro é comida, tá?), porém nada estupendo.
Mas já que toquei no assunto comida, acho que identifiquei minha habilidade. E não é comer, embora faça isso com bastante satisfação. Se eu fosse mutante, com algum poder especial, seria o de encontrar cabelos em comida. Essa, sim, é a minha maior habilidade. Vira e mexe tem algum fio capilar ou até cílio repousando no meu prato ou recheando algum. Já encontrei madeixas conhecidas e desconhecidas dentro de cachorro-quente, quibe e até pão!
O meu último grande achado foi em um restaurante “chiquetoso” de Ilhéus. Com a ajuda de minha mãe, eu e meu marido tiramos um par de horas de folga da nossa filha para namorarmos um pouco. Decidimos experimentar um lugar novo para servir de cenário ao raro momento a dois. Pegamos o cardápio e escolhemos algo diferente da nossa pizza tradicional: Bacalhau a Gomes de Sá. Além do peixe nórdico, batatas, cebolas, azeitonas, ovos cozidos e brócolis regados a muito azeite.
A espera pelo bacalhau foi um tanto desgastante, pois já chegamos com uma certa fome e o suco não estava mais enganando a barriga de ninguém. O ambiente era relativamente agradável, sem som alto. A decoração com chitas tentava passar alegria, mas não conseguia esconder a atmosfera meio esnobe. Demorou tanto que o namoro a dois virou encontro de famintos mal humorados.
Quando o tal Bacalhau a Gomes de Sá finalmente deu o ar da graça, foi servido enquanto um coral imaginário entoava Aleluia de Handel em minha cabeça. Em minhas primeiras garfadas, senti algo diferente. Quando puxei, era um fio tão comprido que parecia aquele truque que o mágico tira trocentos metros de fita da boca. Coloquei o cabelo no prato e examinei a comida com o garfo. Voilà! Eis que surge um companheiro para o primeiro fio. Nisso, o garçom se aproximou discretamente da minha mesa e disse:
- Não é cabelo, é fibra do brócolis.
- Mas eu nunca vi brócolis loiro – respondi com um sorriso cínico.
O garçom ficou desconcertado, deu uma risadinha amarela, que deve ter sido tingida com a mesma tinta barata dos fios de cabelo encontrados. Felipe, meu marido, perguntou se eu queria trocar de prato, mas como encontrar cabelos em comida faz parte do meu cotidiano e a fome estava corroendo um buraco em minhas costas, deixei pra lá e continuei comendo. Meu protesto foi jurar nunca mais voltar ao restaurante presunçoso da cozinha cabeluda. Afinal, não posso ficar gastando meu dom à toa.
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