Marcando o fim
Ultimamente, minha alma tem recebido grandes injeções de ânimo por ter voltado para o meio daqueles que amo. É incrível que, mesmo depois de tanto tempo, reencontrar certas pessoas parece tão natural como se estivéssemos juntas no dia anterior. A diferença é que a alegria é grande demais para ser classificada como normal. Mas o papo flui com tranqüilidade, sem silêncios constrangedores, e desfrutar da companhia é o motivo simples e maior para estar ao lado.
Confesso que temia não me encaixar de volta, de tudo ter mudado demais, inclusive eu. Acho que é por isso que tenho sentido a estranha sensação de liberdade extrema. É parecido com quando se retira o gesso de um braço ou perna. A impressão é que o mundo ficou maior. O meu mundo se expandiu, eu me senti pequenina e, com o apoio dos verdadeiros amigos, estou me readaptando, tomando posse do que sempre foi meu.
Reencontrar velhas amizades é bom demais. É relembrar o passado, rir ou se lamentar do presente e não ter vergonha para falar dos planos mais absurdos para o porvir. Estar com pessoas amigas é algo tão íntimo e agradável quanto dormir no próprio travesseiro. Podemos encontrar gente bacana em toda parte, igual a dormir no melhor dos hotéis. Mas, só aqueles que você ama, como um velho travesseiro, é que te deixam à vontade.
Rever pessoas que você considera especiais é magnífico. Contudo, quando a recíproca inexiste, dói. E dói para valer. Dia desses, encontrei um velho amigo, parceiro de grandes aventuras e desventuras. Ele era o tipo de pessoa que eu não tinha vergonha para me abrir e podia contar a qualquer hora. Quando o avistei, fui inundada por sentimentos bons. Todavia, ao cumprimentá-lo, percebi que já não era o mesmo. Era um desconhecido completo, com uma satisfação chocha, usando uma polidez cheia de formalidades.
- Como vai a família?
Puxa, isso se diz para gente que você conheceu brevemente numa fila de banco! Após meia dúzia de palavras, prometeu me ligar em breve, despedindo-se com a frase típica da amizade falida: “Vamos marcar qualquer coisa um dia desses...” Realmente, ele me ligou, mas com a seguinte motivação:
- Eu não encontrei uns colegas e estou sem programa para o final de semana. Você vai fazer o que?
- Sei lá. Estou sem ideias. Vou ficar em casa.
- Então tá. Tchau!
E assim, nossa amizade foi sepultada. Não quero mal à criatura, mas a amizade de antes recebeu sua extrema-unção depois do telefonema. Eu me lamentei profundamente, como se algo palpável tivesse desvanecido. A amizade que tínhamos era tão concreta que eu achava que poderia tocá-la. Mas, infelizmente, ela chegou ao fim.
Assim como este caso, eu constatei o término de outras relações que eu julgava importantes e até profundas. Algumas, eu cansei de adular para tentar encaixar algum breve momento em suas agendas lotadas ou fiquei cheia dos encontros vazios, cujo assunto é apenas falar negativamente da vida alheia. Quando essas constatações acontecem, eu fico me sentindo uma imbecil que implora por atenção de quem não quer dar. Só que é melhor assim, pelo menos deixo de alimentar ilusões.
A vida pode nos levar a tomar caminhos inimagináveis. Mas, a verdadeira amizade pode sobreviver quando ambas as partes conservam suas essências. E, quando alguém vier com “vamos marcar” sem objetividade, eu não vou esperar por motivos maiores para dar tudo como encerrado.
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