O que me faz mulher

Espelho, espelho meu... Ah, esquece!
Se eu fosse abduzida por uma nave extraterrestre como um exemplar do estereótipo feminino, os pobres dos ETs ficariam frustrados. Biologicamente, tudo bem. Posso não ser o exemplo de beleza feminina, mas o resto do corpo tem tudo o que uma mulher normal precisa ter para ser chamada de mulher, incluindo estrias e celulites. 

Considero meu comportamento bem diferente do padrão feminino. Minhas vaidades e minhas frescuras são outras. Não uso maquiagem ou salto alto. Não vou ao salão de beleza e nem tenho medo de barata. Não perco horas na frente do guarda-roupa escolhendo o que usar e vestidos e saias são peças raríssimas. Aí penso: o que será que me faz mulher, então? Só o físico? Acho que não! 

Já vivi alguns conflitos internos e externos por causa dos meus gostos diferentes. E, como os traumas clássicos, tudo começa com minha mãe. Quando fui me tornando uma mocinha, ela me enchia o saco para me emperiquitar. Comprava roupas justas e curtas, acessórios, mandava eu passar pelo menos “um batonzinho”. E eu nada. 

- Só sei que essa menina não é sapatão porque vive cheia de paqueras. – Provocava. 

E essa desconfiança com minha sexualidade relacionada ao meu modo de vestir chegava a me preocupar. O que sei é que eu nunca me senti atraída por meninas. Pelo contrário. Mesmo “mocoronga”, eu sempre tinha uns namoricos. Era com uns feinhos. Mas uns feinhos legais, com quem eu me divertia um bocado entre locadoras de vídeo game e bitocas. Aliás, fazia muito mais sucesso que algumas amigas mais preocupadas com a aparência. Uma delas, inclusive modelo, pegava no meu pé na hora de sairmos: 

- Coloca um salto para não ficarmos com altura tão diferente. Passa pelo menos uma base para esconder as espinhas! 

- E eu lá sou sua nega? Ói, me deixe que eu me arrumo do meu jeito! – replicava. 

Pior eram os conselhos que eu já ouvi: 

- Os homens gostam mesmo de mulheres bem arrumadas. Podem até ficar com você, mas vão atrás é das que cuidam da aparência. 

Bem, se vaidade fosse fator determinante à fidelidade, todas as beldades seriam felizes no amor. Acho que homem se prende com mais do que beleza. E eu confio na minha “pegada”. 

Só que algumas vezes eu cedi à pressão de ser mais feminina. E isso me fazia sentir péssima, como se eu estivesse me traindo. E estava, mesmo, traindo minha essência. Certa vez, quando eu tinha 15 anos, caí na besteira de ir ao salão fazer minhas unhas. Minha cutícula é finíssima e sempre gostei de usar as unhas bem curtas, pois tenho gastura quando lascam. Todavia, cedi ao “você é mulher, tem que cuidar de sua aparência”. Entrei pelo cano! Peguei uma manicure carniceira que tirou cada lapa de bife! Fiquei uns três dias com os dedos inchados, sem tocar em nada. 

Depois desse trauma, peguei horror à manicure. Já estou batendo nos 30 anos e, nunca mais fiz minhas unhas da mão. Só no ano retrasado que fui ao salão dar uma limpada nas unhas dos pés, pois a barriga de grávida me impedia de tirar o excesso de cutícula, que já subia por cima das unhas. E só. 

Ah, e na semana passada fui ao salão depilar minhas pernas pela primeira vez! Sempre tive os pelos muito finos, quase imperceptíveis e nunca os raspei ou depilei. Só que os hormônios já não andam os mesmos depois da maternidade e os pelos do tornozelo engrossaram. Aí, para a situação não piorar, decidir arrancá-los com cera. O processo foi assustador. A depiladora nem esperou eu me preparar psicologicamente e grudou o plástico melecado na minha canela. Apenas deu tempo de suspirar e fechar os olhos, aguardando a dor. E a dor? Nem senti nada. Eram tão poucos pelos que foi até divertido! 

Daí, entre essas constatações da minha fuga de padrões eu me pergunto? E o que faz com que eu me sinta mulher? Acho que a resposta vem do óbvio da alma feminina: Eu amo manipular os homens. São divertidos, previsíveis e quentinhos para eu me enroscar!

Comentários

Unknown disse…
Adorei, principalmente o último parágrafo! É incrível com são "facinhos" quando a gente sabe o que quer fazer com eles!!!
Mas é difícil ser fora dos padrões, Dandara sente na pele as diferenças e as cobranças e exigências do modelo padrão do feminino... muitas vezes peguei no pé pedindo um saltinho ou um gloss, mas estou tentando respeitar as suas reais necessidades enquanto mulher!!! bjs

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