Amizades de merda

Está na merda? Karol é uma boa companhia.
Como me disse Felipe, quando falei da ideia para este texto: Lá vem uma distribuição de carapuças! E, se doer em alguém, paciência. Afinal, já sinto dor o suficiente dentro de mim ao constatar a minha serventia para certas pessoas. Sou uma boa amiga na merda. Não uma amiga DE merda, mas NA merda. 

Quando chego a esta infeliz conclusão, não estou me diminuindo. Já ouvi que tenho mania de me depreciar, que minha autoestima não é muito mais alta que uma gilete. Mas, é que tenho tanta consciência de quem eu sou, que não tenho medo de brincar com o que não sou. Só que, repassando meu histórico de amizades, percebi que sirvo muito bem para aqueles em situação de merda. 

Se estivermos sem dinheiro, não tem problema. Faço questão de juntarmos nossas nicas e compramos um lanche baratinho na rua ou até mesmo compartilhamos um PF. Se estivermos sem emprego, vamos rir muito, imaginando em que ponto da cidade rodaremos nossas bolsinhas ou onde teria curso de artesanato para virarmos hippies. Se nosso status social está entre as mais baixas castas, vamos tirar onda de bacana respirando o ar condicionado do shopping sem comprar uma peça qualquer. Se o cotovelo está doendo ou a família enchendo o saco, falemos mal de todos e coloquemos apelidos infames! 

Em qualquer situação chata, eu consigo fazer piada. Inclusive, quando vivo os meus dramas particulares. Não consigo levar a vida a sério e costumo me definir como duplamente pé no chão. Primeiro, por prezar pela simplicidade e, segundo, por ter consciência de que tudo é transitório. Dinheiro, emprego, status social, problemas familiares... Tudo está em constante mudança. Inclusive, as amizades. E isso quando percebo que mudou é o que mais machuca. 

Cansei de procurar gente com quem eu tinha uma relação íntima e ser tratada com uma estranha educação formal. Risadinhas amarelas, perguntas amenas e o tradicional: “Vamos marcar qualquer dia”. Até já escrevi sobre isso há pouco tempo. Mas, agora, caiu a ficha: sou mesmo uma amiga na merda, que só presta para entreter as digníssimas personalidades enquanto viviam uma fase ruim. Pois agora, que levam uma vida resolvida, plena daquilo que gostam de ostentar, minhas piadas ridículas recebem o desprezível “tsc, tsc, tsc”. Ou então as minhas brincadeiras infames são encaradas como ofensa mortal à honra ilibada das atuais celebridades do frágil império de cristal. 

Acho que o Facebook está me ajudando a fazer um inventário de quem realmente é amigo e quem virou conhecido. Fico olhando para aquelas caras e pensando: Será que se eu ficar cinco minutos em silêncio ao lado desta criatura seria constrangedor? Afinal, certa vez ouvi dizer que os verdadeiros amigos não são apenas aqueles com quem flui um bom papo, mas aqueles em que não é incômodo ficar calado ao lado. 

Este pensamento me ajuda a chegar a uma bela conclusão. As verdadeiras amizades que me restam não são pessoas que eu vejo diariamente, nem falo com frequência. Muitas delas há meses que não encontro, mas, quando acontecer de nos batermos por aí, poderemos ficar horas sem dizermos uma só palavra e continuarmos no sentindo bem juntas.

Comentários

Anônimo disse…
Lindo e verdadeiro, é assim mesmo que acontece.
Estou passando por isso exatamente neste momento, mas tenho orgulho de ser amiga NA merda e não DE merda. Belo texto! =)

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