A asneira do burro educado

Geralmente, burros são animais dóceis e submissos. Quando soltos, caminham sem pressa, com aquele olhar relaxado, distante, até meio triste. Talvez sejam tão introspectivos por uma crise de identidade, pois mesmo com tanto vigor físico, estão divididos entre a nobreza dos cavalos e a humildade dos jumentos. Parecem alheios ao resto do mundo, vivendo um dia após o outro no seu mundinho paralelo. 

No bairro onde moro, vira e mexe aparece algum burro solto na rua, por irresponsabilidade e desmazelo dos seus donos. Às vezes, aparecem em grupos, dividindo a pista com carros, ônibus e motos, tomando pedradas de meninos perversos, mordiscando o mato alto dos canteiros e revirando latões de lixo. 

Dia desses, enquanto eu e meu marido levávamos nossa filha à escola, nos deparamos com uma dupla de burros em nossa rua estreita. Apesar da aparente docilidade dos animais, ficamos um pouco tensos ao passar perto deles. Mas, um deles tinha um olhar diferente, aflito. Ficava sacudindo a cauda como se algo o estivesse incomodando. 

A minha curiosidade foi maior que o medo. Aproximei-me a uma distância segura de um coice para conferir o derrière do equino. Ao descobrir o motivo de estar tão agoniado, caí numa culposa crise de risos. A maioria das pessoas conhece o formato do cocô dos burros, cavalos e jumentos. São aqueles “gomos” ovalados, ligados uns aos outros como uma linguiça. Pois então! O cocô do burro angustiado estava ligado por uma sacola plástica. E o coitado não conseguia terminar de fazer o serviço dele, com a sacola pendurada em seu traseiro.

Fiquei imaginando a agonia que o burro sentia, como o coitadinho estava desejando ter mãos ou invés de cascos para puxar aquele troço ou então, clamando por uma alma caridosa para livrá-lo do sofrimento. O pobrezinho estava passando por maus bocados e eu ainda tinha a pachorra de rir da cara dele. 

Na tarde seguinte, o meu sentimento de culpa por rir do burro foi amenizado. No chão do beco, encontramos o sinal de que a agonia do bichinho foi resolvida. Aí, voltei a rir da piada de mau gosto, que desfilou em frente aos meus olhos: diferente dos cães porcalhões, o burro educado, para não sujar a rua, tentou fazer cocô na sacola.

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