Ameaça de amor
Quando cursava o primário, tinha um garoto na minha sala que, atualmente, poderia ser chamado de hiperativo. A criatura não parava quieta, era uma matraca disparada, não ficava quieto por 10 minutos, nem conseguia focar em nada. Era repetente, andava todo molambento, sempre suado, despenteado e ainda por cima usava óculos fundo de garrafa. Tirava péssimas notas e sempre se metia em alguma encrenca. Vira e mexe estava visitando a sala da direção por quebrar alguma coisa, responder a professora ou brigar com um colega.
Algumas meninas tinham nojo dele. Uma vez, juntaram pó de borracha, restos de lápis apontado e outras melecas para jogar na cabeça do maluquinho. Eu tinha pena, pois sabia que era órfão de mãe e ficava imaginando o quanto devia doer dentro dele. Na festa do Dia das Mães, quando ainda estávamos na pré-escola, ele levou uma tia como sua figura materna e um retrato dele dentro de um pires de louça (aquelas lembrancinhas cafonas que um monte de gente fez na infância), que ele havia dado para a mãe antes de ela falecer. Lembro-me dele amarrando a fita de um buquê de flores na cabeça, enquanto corria pela sala, subindo e descendo das carteiras. Foi quando senti mais compaixão.
Por causa da minha compaixão, acabei me aproximando dele. Eu era uma das raras meninas com quem ele conversava, talvez até a única. A partir da minha cordialidade, o garoto acabou se apaixonando por mim. E era paixão declarada, de dizer para todo mundo que me amava, casaria comigo e tudo mais. Eu só dava risada e dizia que só podíamos ser amigos, mas ele não desistia e, volta e meia, fazia alguma declaração de amor pública para me matar de vergonha e virar motivo de piada.
As declarações de amor do meu colega amalucado eram sempre verbais, graças a Deus. Por isso, eu conseguia tirar de tempo, transformar em brincadeira. Só que um dia, a coisa ficou séria, quando achei um bilhete nas minhas coisas. Foi um esforço decifrar os garranchos, que diziam assim: “Karol, eu te amo. Você é minha namorada. Eu vou te dar um beijo na boca”. Fui tomada por um pânico interior. Ok, eu tratava o doidinho bem, contrariava seus delírios com educação, mas aquilo já era demais.
Discretamente, fiquei monitorando a criatura durante toda a aula. Ele me olhava de vez em quando e dava um sorrisinho. Quando tocou o sino do recreio, comecei a suar frio. “Se ele vier me beijar, eu vou picar a mão, não quero nem saber”, confabulava comigo mesma. O menino saiu para o pátio e eu fiquei na sala. Para lanchar, solicitei a escolta das minhas amigas, que garantiram reforço caso o “Romeu” tentasse algo. Acabou o recreio, voltamos para a sala e eu estava ilesa. “Então ele vai me pegar na saída”, imaginei. As duas últimas aulas foram um suplício. Queria que o tempo passasse logo para que pudesse disparar em desabalada carreira para longe do beijoqueiro.
E, a hora da saída chegou. Eu me piquei para o portão, pedindo a Deus que meus pais já estivessem me esperando. E minhas orações foram atendidas! Avistei minha mãe e corri para os braços dela. Contei a história, fiz questão de frisar os meus momentos de tensão durante toda manhã e mostrei o bilhete. Ela leu atentamente e caiu na gargalhada.
- Tadinho, ele só está abrindo o coração para você. Mostrando que é alguém especial para ele e falando o que tem vontade de fazer. É uma só declaração de amor! – explicou minha mãe.
- Declaração uma pinoia! Isto é uma ameaça!

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