Material descartável
O
setor era um grande vão, organizado por divisórias de MDF. A maior parte dos
funcionários pareciam clones das cunhadas gêmeas do Homer Simpson, mas sem os
cigarros pendendo no canto da boca. Olhar vitrificado, expressão facial de como
se tivessem acabado de engolir um remédio amargo. A fala no ambiente era baixa, com poucas
inflexões. E, ao redor, o contraste de toda alegria dos jovens estampados nos
cartazes, na celebração de terem alcançado o grande triunfo do nível superior,
pagando os juros colossais do Financiamento Estudantil.
Aguardava
na fila a minha vez de pegar o reembolso da minha matrícula. Tinha sido
aprovada em primeiro lugar para o curso de psicologia. Quando prestei o
vestibular, fui criticada por familiares e amigos, que julgavam bobagem eu
enfrentar outra graduação. “Você deve tentar um mestrado ou um concurso público”,
ouvi de alguns. Mas psicologia era algo que sempre me empolgou. Sou fascinada
pelo comportamento humano, como somos bichinhos pretensiosamente mais espertos
que os outros, mas primitivamente tão previsíveis.
A gente faz planos para a vida, mas o destino às vezes disponibiliza rumos totalmente
diferentes dos idealizados, acabei não tendo condições para arcar com os
compromissos financeiros para entrar no curso logo no primeiro semestre. Assim,
na primeira semana do ano, procurei a secretaria acadêmica para solicitar a
manutenção da minha vaga para o segundo semestre, explicando todas as minhas
razões. As moças que me atenderam até foram simpáticas e me deram o prazo de 72
horas para uma resposta via e-mail. O tempo passou e nada. Eu ligava para pedir
algum posicionamento e nada. Fui à faculdade duas vezes e nada. Passaram-se
duas semanas e a única resposta que obtive é que meu requerimento estava sendo
analisado. E mais nada.
Com
a proximidade do início das aulas próximas e a falta de qualquer parecer, decidi
cancelar minha matrícula. Foi algo dolorido, contudo o mais racional. Pedi
outro requerimento e fui ao setor financeiro. Quando entreguei o papel, o
funcionário sequer me perguntou o motivo pelo qual eu pedia o meu desligamento
prematuro. Explicou-me os procedimentos com naturalidade e, no prazo
estabelecido, enviou-me um e-mail comunicando que o meu reembolso já estava
disponível.
O
cubículo da funcionária ficou vago e eu me aproximei, explicando que estava lá
para pegar a devolução da matrícula. A moça perguntou meu nome, enquanto
procurava em um classificador repleto de cheques. Eu ainda brinquei que o setor
financeiro estava mais rápido que o setor acadêmico. Ela me respondeu com um
sorriso amarelo e disse que sentia muito, mas não podia fazer nada. Pelo menos recebi
mais simpatia que o rapaz para quem fui perguntar se quem passava em primeiro
lugar tinha algum desconto e ele me respondeu que o máximo que poderiam me dar
era parabéns, além do chá de cadeira antes de me receber.
Não
estava esperando ser tratada com pompas e circunstâncias nem muito menos
bajulada como uma dama da nobreza, mas, o tratamento que recebi foi totalmente
oposto a tudo o que já vi sobre a melhor forma de lidar com um cliente. Afinal,
não estavam fazendo nenhum favor para mim e nem para qualquer aluno que fosse. Com
toda propaganda ostensiva do FIES – inclusive no boleto das mensalidades – a instituição
demonstra total desinteresse em manter os alunos. Afinal, enquanto o curso é
muito bem pago pelo dinheiro público, uma fila de estudantes está ávida a se
endividar por mais de 20 anos, sonhando com a sessão de fotos do convite, a
festa de arromba e o canudo mágico que abrirá milagrosamente todas as portas de
emprego. Os alunos de certas instituições de nível superior viraram material
descartável.

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