Você é todo mundo
“Check-check-check-check”,
é o barulho que a minha vizinha faz com a vassoura, enquanto lava a calçada. “Como
sou asseada, vou deixar meu passeio um brinco”, deve pensar minha vizinha. “Vai
dar até para lamber o chão”, deve imaginar, orgulhosa de seu espírito
asséptico. Essa tarefa diária é cumprida com devoção. É praticamente uma beata
da lavagem de calçadas. Se fosse com vassoura e balde, menos mal. Mas ela usa a
mangueira, que pode gerar um gasto de até 250 litros.
A mulher executa sua tarefa admirando sem pressa as
ondas formadas pela pressão do jato ao bater no chão; o arco-íris formado pela
luz solar atravessando as gotículas do precioso líquido que brota da mangueira;
o rastro de água e sabão que vai seguindo rua abaixo, como um delgado e perfumado
rio. Depois de jogar água e sabão, capricha na fricção da vassoura, jogando
ainda mais água para enxaguar e mandar toda sujeira embora, junto com sua
consciência ambiental.
Bem que eu poderia dar um toque a minha vizinha,
falar sobre os perigos do desperdício, como ela poderia economizar,
reaproveitando a água usada na lavagem de roupas, que já vem com sabão e
trocando a mangueira pelo balde. Mas a minha timidez e o medo de arrumar
encrenca com quem pode tirar o meu sono literalmente, não me atrai. Contorço-me
por dentro, bufo e sento na frente do computador para desabafar escrevendo esse
texto.
Quando era só no distante sertão nordestino ou na exótica
África , rendendo matérias jornalísticas e documentários comoventes, marejando
os olhos dos espectadores por um minuto, a falta de água era quase ficção
científica. Ouvi muito na minha infância que, em 50 anos, o mundo viveria uma
grande estiagem e a água doce seria artigo de luxo. Mas não é que essa era
resolveu chegar mais cedo?
A falta d’água só consternou o Brasil quando
atingiu o seu umbigo, que é para onde todos olham. Depois que o desenvolvido sudeste
passou a conviver com a realidade dos sertanejos e africanos, soaram o alarme,
buscaram culpados, investiram em campanhas educativas, sobretaxaram os
perdulários domésticos.
Como escreveu Carlinhos Brown e Marisa Monte
cantou, “Segue o Seco”. A água fugiu das
torneiras de Itabuna e o racionamento entrou para a rotina. O rio Cachoeira,
cada vez com menos volume, exibe suas pedras, consequência de uma consciência rasa
e uma visão míope, que não consegue ver além da resolução de necessidades e problemas
imediatos.
Chove cada vez menos, enquanto não paramos de
gastar cada vez mais. Desmatamos, poluímos, desperdiçamos. A conta chegou para
pagarmos caro e não há dinheiro que resolva. Falo na primeira pessoa do plural
porque ninguém pode ser excluído desta responsabilidade. Bem diferente de
quando eu pedia a minha mãe para comprar o brinquedo ou a roupa da moda e ouvia
como resposta: “Você não é todo mundo”. Porém, quando se trata do uso de um bem
coletivo, eu sou todo mundo. Afinal, ainda não aprendi a fabricar e nem tratar
minha própria água.
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