Precisamos falar com nossos meninos

Estava indo lanchar na Praça Castro Alves com duas amigas. No caminho, comentávamos nossos insucessos ao tentar explicar o que é a cultura do estupro a alguém cabeça-dura. Chegando ao local, pedimos um pastel e procuramos uma mesa para nos acomodar. Uma de minhas amigas se sentou e eu fiquei de pé aguardando a outra que esperava seu troco, quando fomos interrompidas por um rapaz que é presença habitual na pracinha desde quando ele ainda era um menino.

- Boa noite!

- Boa noite! – respondemos.

Após o cumprimento, ele continuou ao nosso lado, como se tivesse algo a nos dizer. Aproximou-se da minha amiga que estava sentada e acariciou o rosto dela com as costas das mãos.

- E aí, loura-onça, estava com saudade do meu carinho? – disse ele, enquanto minha amiga, sem graça, tentava afastar o rosto delicadamente.

Foi então que tentei ser didática com o moço e falei, calmamente:

- Você sabia que isso não é carinho, mas assédio?

O rapaz desfez o semblante inocente e subiu o tom de voz:

- Você é namorada dela? – replicou com rispidez.

- Não, sou amiga. E tocar numa pessoa sem permissão é assédio.

Ele não quis render conversa comigo. E o jeitinho até meio infantilizado desapareceu. A cara dele ficou ainda mais feia e completei, ainda com calma:

- Pergunte a sua mãe se ela gosta que um homem pegue nela sem permissão!

A cara de contrariedade do rapaz aumentou e ele me deu as costas. Saiu buscando outra pessoa para abordar e passar seu tempo. Vagando pela praça, cumprimentava os homens com reverência e, somente as mulheres desacompanhadas de figuras masculinas, ele voltava a acariciar e chamar de loura-onça ou pantera-negra, perguntando se sentiam falta do carinho dele, o ursão. 

Não sei quem ensinou a ele esse jogo de paquera bastante inconveniente. Talvez, alguém que quando o rapaz barbado ainda era um menino julgasse engraçado ver um pirralho com ares de galanteador. E, quem ensinou a ele a abordar somente mulheres desacompanhadas de homens? E por que ele reagiu com rudeza quando falei sobre o assédio, mesmo que com calma e educação? 

Infelizmente, por mais que alguns tentem negar, nós vivemos numa sociedade machista em que impera a cultura do estupro. A mulher não tem direito sobre seu próprio corpo e só é respeitada desde que esteja com um homem que delimite sua propriedade. Essa realidade é naturalizada e replicada até mesmo por outras mulheres, que não veem o quanto é terrível incentivar um menino a dar em cima de outras meninas. Daí, eles aprendem a puxar pelo braço ou cabelo, a passar a mão, a segurar para beijar, a se esfregar no ônibus, e outras atitudes que toda mulher reprova quanto um homem as pratica sem sua permissão. Isso tudo, querendo ou não, é a semente do estupro. É o “não” que, para os homens excitados e cheios de “amor pra dar”, é um “sim” com charminho. Afinal, homem é meio bicho, tem necessidades.



Precisamos falar com nossos meninos sobre cultura de gênero e do estupro, sim. Porque os amamos muito e não queremos que eles um dia sejam vistos como inconvenientes, asquerosos ou monstros. Essa conversa é essencial para que nossos meninos cresçam e se tornem homens mais humanos.

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