Nos detalhes
Uma velha gorda caiu bem na minha
frente. Vi que ela já vinha capengando antes, mas quando tentou desviar de uma
loura burra falando, distraidamente no celular, pisou em falso no meio fio e se
espatifou no chão. Ajudei a erguer a velha que era muito pesada. Se eu, jovem,
não aguentava sustentar o peso dela, imagine aquela coroa baixinha tendo que se
equilibrar naquelas perninhas curtas. Mas gordo é assim, não tem muito amor
próprio, não se cuida e depois tem que depender dos outros saudáveis. Como
minha mãe me deu educação, fui ajudar a idosa, que tinha ralado o joelho. Catei
das coisas dela que tinham se espalhado na calçada e fui até a farmácia da
esquina para comprar um antisséptico. Ela ficou sentada no banco do ponto de
ônibus, sendo acalmada por um traveco que trabalha num salão de beleza logo em
frente. Na farmácia, um crioulo me atendeu. Foi muito gentil, estava bem
arrumado, parecendo até gente. Ele perguntou o que eu queria, respondi e ele me
indicou um antisséptico mais barato do que a marca que pedi. Bacana ele. Preto
de alma branca. Saí da farmácia e uma mulata arrastando um menino mongoloide se
bateu em mim. Falei para ter cuidado, pois ele poderia se machucar ou machucar
alguém, passando daquele jeito. Se não consegue controlar o retardadinho, que o
ponha numa coleira. Não falei isso para a mulata, mas pensei. Ao chegar ao
ponto de ônibus, a velha gorda não estava. O traveco tinha levado ela para
dentro do salão para dar água com açúcar. Tem as viadagens dele, mas tem bom
coração. Até seria bonito se fosse homem. Ajudei a limpar o machucado da velha,
passei o antisséptico e perguntei se ela queria carona até em casa, pois meu
carro estava logo adiante. Ela disse que não precisava, mas insisti e disse que
eu cinco minutos voltaria para pegá-la. Quando cheguei ao local onde meu carro
estava estacionado, um doente mental tinha estacionado todo atravessado, na
vaga de aleijados, travando minha saída. Buzinei forte para ver se aparecia o
dono. Veio um guardinha de trânsito, um preto suado, que aparentava estar até
fedendo, que me ajudou a manobrar o carro. Baixei o vidro, agradeci e falei com
ele: multa essa bicha, cego que estacionou igual um retardado. Ele balançou a
cabeça e deu uma risadinha sem graça. Isso porque não deve ser macho para falar
isso. Tem que ter colhões para mostrar para os outros como se deve agir certo,
oras. Assim que saí com meu carro o dono apareceu. Melhor, a dona. Pensei: só
podia ser mulher para fazer uma cagada daquelas. Só que minha preocupação era
em ajudar a velha, sou gente de bem e não vou ficar arrumando briga na rua por
besteira dos outros. Peguei a velha, levei-a em casa. No caminho, perguntei se
queria que a levasse ao hospital, mas ela disse que estava bem. Abri a porta do
carro, dei a mão para que se apoiasse na saída. Um peso monstruoso, quase me
arrebenta as costas. Dei o conselho para ela emagrecer, cuidar da saúde, se
alimentar melhor. Ela me sorriu grata e se despediu me dando um beijo na testa e
desejando que Deus me abençoasse. Agradeci, beijando as costas das mãos dela.
Entrei no carro e, antes de arrancar, senti um cheiro estranho. Era do perfume
barato da velha gorda, que tinha suado o banco do meu carro. É assim, a gente
faz uma boa ação e ainda tem que aturar essas coisas. Mas eu sou uma pessoa de
bem, sem preconceitos e com disposição a ajudar o próximo, independente de quem
seja.
O
texto acima poderia contar a mesma história sem a necessidade de termos
preconceituosos. Trata-se da descrição de uma boa ação, praticada por uma “pessoa
de bem”, solícita, que não mediu esforços para socorrer a senhora desconhecida
que caiu em sua frente. Tantas palavras mal ditas e malditas, que carregam uma
carga negativa gigante, embora não sejam proferidas com o intuito direto de
ofender. E essa história de que “o que vale é a intenção” não funciona. Não
funciona porque, mesmo que o intuito não seja demonstrar um preconceito
particular por algo, reforça o preconceito da sociedade.
Palavras são
políticas, são atitudes que tomamos diante de algo. Então, escolhe-las com
cuidado pode ajudar a promover positivamente determinados segmentos sociais que
sofrem discriminações constantes. Como aprendi vendo um DVD da Hello Kitty, ter
boas maneiras é demonstrar respeito pelo outro. E o uso correto de determinados
termos é respeitar quem sai dos padrões socialmente aceitos como normais.
Nos últimos
dois dias, eu me vi envolvida em discussões sobre racismo e capacitismo. Em um
grupo do Whatsapp, um amigo que tem coração de ouro e é uma das pessoas mais
generosas que conheço, compartilhou uma piada de cunho racista, que falava de “pretinhos”
que queriam ser brancos. Seguindo a orientação bíblica de corrigir com amor,
tentei mostrar que o racismo está implícito e naturalizado em nossa sociedade.
Por mais que a nossa intenção seja brincar, não tem graça fazer anedotas com
quem já é vítima de discriminação diariamente, pois ajuda a reforçar a ideia de
que negros são cidadãos de segunda classe. O autor da piada se justificou
dizendo que é contra qualquer tipo de discriminação. Eu acredito nele, sei que
é um homem bom. Mas, infelizmente, não é fácil percebemos o que carregamos de
podre da nossa doutrinação que nos faz ver como sinônimo de respeito e poder homens
brancos, heterossexuais, saudáveis e financeiramente bem sucedidos.
O segundo caso
foi no Facebook, no título de um pequeno artigo escrito por um intelectual de
respeito e notória competência, que usava o nome de uma doença como metáfora
para uma atitude incompetente. Nesse caso, ao invés de palestrar nos
comentários para tirar onda de palmatória do mundo, chamei a pessoa no
bate-papo privado e falei sobre os malefícios do capacitismo, como é ruim utilizar nomes
de doenças como sinônimo de atitudes erradas. Ele, educadamente, explicou-me
que usou o termo metaforicamente. Respondi que entendi a intenção dele, mas que
poderia usar outros termos que não reforçassem a ligação de doenças a ações
negativas. Afinal, quem é doente não, necessariamente, vai agir de maneira
errada em função da doença. Dizer que alguém tem uma visão míope sobre um tema,
não é sinônimo de que todos os míopes não podem ser visionários. Mas reforça a
ligação da doença algo degradante. Após uma breve e saudável discussão, ele considerou minhas colocações como críticas positivas.
Tem que pense
ser mimimi, implicância, chatice da minha parte e de tantas outras pessoas que
lutam para que determinados termos não sejam utilizados de forma pejorativa. É
o caso do circo e do palhaço, comumente usados como sinônimo de bagunça e
alguém que é feito de bobo. Quem conhece os profissionais circenses e do riso
sabe como desempenham um trabalho sério e organizado para entreter o público e
ganhar seu dinheiro dignamente.
Como diz o
dito popular, “o diabo mora nos detalhes”. E eu acredito que Deus também está nas
entrelinhas do dia a dia. E, é no cuidado com as palavras, aparentemente tão
irrelevantes, que podemos promover o bem ou o mal.

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