Também quero viajar neste balão

Até o momento em que escrevo este texto, tenho sete tatuagens. Volta e meia alguém me pergunta qual o significado de alguma delas. A primeira, feita assim que me casei em 2004, é a junção de um F e um K, bem na base das costas. Ela é bastante simples, já está meio gasta e distorcida pelas novas formas que meu corpo assumiu, mas segue com sua missão de contar a minha história, como todas as outras. 

Há cerca de dois anos, conheci o trabalho da competente Dyala Lisieux, uma jovem tatuadora que montou seu estúdio em Ilhéus, o IOS Ink. De lá para cá, já fiz uma âncora cujo anete – aquele anel de cima por onde passa a corda – é um coração; umas flores feitas em um dia de promoção; uma ampulheta com um trecho da música Nada Sei (Enquanto o tempo me deixar passar); um broto de samambaia estilizado da cultura maori; uma pena de escrita e, por último, um balão colorido, que enfeita minha panturrilha direita. 

Cada desenho tem seu significado. Nem que seja “vi o desenho, gostei e tinha grana para tatuar”. Mas, a última, a do balão, tem um algo a mais, pois me faz viajar até minha infância. Sim, é uma historinha meio piegas, mas acho bonitinha, como toda história piegas! Quando eu tinha uns oito anos, participei de um concurso de desenho de uma enciclopédia. Os representantes passaram nas salas pedindo que as professoras indicassem estudantes que desenhassem bem para participar da seleção. A professora escolheu dois colegas. Eu, com toda minha ousadia, levantei meu braço, pedindo para participar. Sem graça, a professora deixou que o representante anotasse meu nome. Sempre fui muito tímida. Não sei de onde tirei a coragem de me impor daquela forma. Nunca fui a criatura mais habilidosa com um lápis na mão, porém gostava muito de desenhar, criar histórias, mesmo com traços sem refino. 

No sábado de manhã, levei a minha cartolina e todos os apetrechos de desenho que eu tinha em casa, incluindo algumas sementes de pau-brasil que havia recolhido na praça de Valença e conchas da praia. As crianças foram espalhadas pelo chão da praça em frente ao Teatro Municipal e foi dado o tema: o que você quer ser quando crescer. Fiquei olhando para a minha cartolina vazia e pensando mil coisas. Depois, comecei a olhar o que as crianças ao meu redor desenhavam. Lembro bem de um menino que fez um astronauta com roupa azul, cheio de detalhes. Muito bonito mesmo. E eu, olhando minha cartolina e pensando. Perto de acabar o tempo, tive a ideia do que realmente eu queria para a minha vida adulta: viajar pelo mundo. Eu não queria ser nada, apenas fazer, experimentar, vivenciar. Desenhei meu balãozinho a lápis, recortei uns pedaços de papel colorido para fazer seus olhos e pintei um sorriso com hidrocor. Ele voava entre nuvens de algodão e, logo abaixo, o mar com peixinhos de conchas e sementes de pau-brasil (minha licença poética!). 

O balão que fiz naquele concurso estava muito longe de ser o melhor desenho, seja entre aquelas crianças ou entre os que eu já havia feito e fiz no futuro. Só que ele traduziu o que eu realmente queria vivenciar quando crescesse. Pois bem, cresci, ainda não sei muito bem o que sou, porém sei o que quero vivenciar. Quero seguir viajando. Ainda não consegui estrear meu passaporte nem mesmo mapear a minha região. Mas amo excursionar, explorar novos mundos. Assim, não viajo apenas quando arrumo minhas malas e saio de casa. Aproveito para viajar em cada momento, em cada pessoa que conheço, nos olhares, sorrisos, lágrimas, nos relatos de vida. Confesso que sempre as viagens são boas, contudo são necessárias e trazem aprendizados, ajudam-me a ampliar minha visão de mundo. Por isso, no momento que vi aquele balão colorido estampando a parede do estúdio de Dyala, tive a certeza de que gostaria de ter essa história marcada em meu corpo. É o que eu gosto de fazer enquanto cresço.

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