A paz

A paz em meio ao turbilhão do tempo
Quando me apresentei para entrar em exercício na Prefeitura de Ilhéus, fui perguntada sobre em qual setor gostaria de ser lotada. Respondi com muita segurança: “eu quero trabalhar”. Foram dois anos de luta, audiências com o Ministério Público Estadual, Ministério Público do Trabalho e administração municipal buscando a garantia do direito dos aprovados no Concurso Público de 2016. Diante da falta de perspectivas, foi formada uma comissão e impetrada uma Ação Popular. Para isso, precisavam de nomes representando a coletividade. Eu dei o meu, assim como outros dois colegas. 

A minha nomeação não aconteceu por força da Ação Popular que versava sobre a Violação dos Princípios Administrativos nem pelo Mandado de Segurança que eu havia dado entrada. Foi a última boa notícia que consegui dar a meu pai antes de ele falecer três dias depois da publicação no Diário Oficial do Município. O clima de luto não permitiu a comemoração, mas estava feliz pela conquista de algo que demandou tantas batalhas. 

Embora já trabalhando na Prefeitura, a Ação Popular seguia tramitando e, enfim, o juiz proferiu a sentença determinando a demissão dos servidores não-estáveis, bem como a convocação dos aprovados. Antes mesmo do cumprimento da ordem do juiz da Vara da Fazenda Pública, passei a sofrer provocações. Nunca respondi a qualquer uma. Compreendi que os colegas estavam com raiva, desesperados e, apesar de eu não ter qualquer tipo de poder decisório, de ter apenas meu nome como representante no processo, fui escolhida como alvo mais fácil. Ademais, o fato de ser mulher e quieta, certamente aumentou a confiança de quem estava a fim de extravasar sua revolta. 

Em meio a provocações, a precisar fugir do meu setor por medo de ser agredida e chegar ao ponto de registrar um boletim de ocorrência por ameaça a partir de um print de um grupo de Whatsapp, vi que não cabia mais naquele ambiente. A minha paz estava sendo sacrificada e ela não tinha preço. Dei entrada no meu pedido de exoneração por não suportar mais essa guerra de nervos. Fui até onde eu acreditava e cheguei ao meu limite. Não tenho vocação para mártir e muito menos para ser apedrejada como a Geni de Chico Buarque. 

Durante esse período conturbado, veio uma feliz surpresa: Fui selecionada pela Cooperbom Turismo para representar o Brasil no Aesop Project, projeto internacional co-financiado pela União Europeia e coordenado pelo Teatro Aeroploio - Topos Allou da Grécia. A capacitação aconteceu entre os dias 11 e 15 de fevereiro, abordando técnicas de contação de histórias e promoção do desenvolvimento local. Junto com mais duas colegas baianas, representei a cultura oral brasileira, aprendi muito sobre metodologias teatrais, conheci parte do berço da civilização ocidental e troquei experiências com profissionais da Grécia, Espanha e Vietnã. Em breve, faremos oficinas a fim de multiplicar entre jovens da região o que vivenciamos lá fora. 

Enquanto estava organizando a viagem, a Prefeitura ainda não havia publicado a minha exoneração e o meu salário de janeiro foi creditado integralmente. Quando voltei da Grécia, procurei o setor da Administração para tentar devolver o dinheiro. Fui perguntada se estava certa da minha decisão, pois era evidente que eu não trabalhava em razão das ameaças. Todavia, como luto por aquilo que acredito, sigo em busca do que não tem preço: a manutenção da minha saúde emocional e mental. Portanto, assim como consegui minha aprovação no concurso, quero seguir colhendo os bons frutos do meu trabalho. E quero seguir em paz. Àqueles que veem em mim um bode expiatório, utilizando vinganças levianas para dar vazão ao seu ódio, desejo o mesmo: paz.

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