Deixei de existir
Eu só pensava em morrer. Mas tinha medo de deixar de existir. O desejo de morrer era como uma fuga dos meus fracassos. Embora com tantos sucessos, tantos tesouros invejáveis, eu me sentia uma fraude, uma mentira mal contada.
Apesar de ter uma vida excelente: saúde, família, proteção, eu só queria morrer. Mas tinha medo de ir parar numa espécie de limbo, na escuridão do desconhecido. Imaginava várias formas de arrancar de mim o último suspiro. Cortar os pulsos? Não teria frieza para dilacerar minha carne lentamente. Horror a sangue. Enforcamento? A sensação desesperadora de sufocamento me freava qualquer rompante de coragem. Ou se não conseguisse ter sucesso, faltasse oxigenação no cérebro e seria condenada a vegetar, carregando a vergonha da tentativa frustrada marcada pelas sequelas. Overdose de medicamentos? Se não fosse a dose certeira e fosse parar numa UTI, intubada? Não!
Resolvi me matar aos poucos. Fui me afastando lentamente do que amava. Fui me trancando na minha dor de existir. Fui me isolando dia a dia. Deixando de ser presente, deixando de ser necessária. Deixando de fazer parte da minha vida. Deixando o que importava para superdimensionar os meus fracassos. Acabei procurando caminhos que me levassem para longe de quem eu era. Por fim, morri em vida. Renasci em meio ao luto de quem fui, sem saber como seguir, sem coragem para voltar. Fiquei em um limbo, lidando com o meu medo maior. Não morri fisicamente, contudo, deixei de existir. Não sou mais quem eu era. Não tenho mais o que eu tinha. Perdida, vago pelo mundo esperando o misericordioso e inevitável beijo da morte.
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