Bolo com queijo

Sabe aquelas lembranças que deixam nosso coração quentinho, que faz a gente acreditar que a vida se resume àquele momento gostoso? Nada de preocupação, nada de raiva ou frustração. Só aquele momento que deixa tudo certo dentro da gente. O meu é comer bolo comum com uma fatia de queijo por cima.


Quando corto o pedaço de bolo e coloco, delicadamente, a fatia de queijo por cima, viajo no tempo. Não há sabor de bolo específico. Pode ser de chocolate, mesclado, laranja. O importante é que seja tipo caseiro, exaltando o que há de mais simples. Com a marca da forma enfarinhada na borda. Talvez uma casquinha arrancada, por ter sido desenformado ainda quente. E o queijo? Pode ser qualquer um. Até velho, meio ressecado! Mas, para deixar perfeito mesmo, é a fatia cortada à mão da peça, com as ondinhas dos dentes da faca, as bordas assimétricas. São aquelas pequenas imperfeições que deixam tudo único.


Comer bolo com uma fatia de queijo é um costume que trago da minha infância, da época que meus pais ainda moravam juntos. Nossa família não era perfeita, assim como os bolos e as fatias de queijo. Mas, o momento de degustar essa combinação inusitada para muitos, era o instante que eu sentia tudo dar certo ao meu redor.

   

Minha mãe era quem fazia o bolo. É um habito que ela mantém até hoje, toda semana, religiosamente. Diz ela que perfuma a casa, deixa com atmosfera de lar. 


O queijo era cortado por meu pai. Ele pegava aquela peça de queijo prato Veneza, abria delicadamente com a ponta da faca, soltando a cola que sela a embalagem laranja. Fazia com tanta paciência e cuidado, que eu amava assistir. Tipo um monge japonês podando um Bonsai. Às vezes, ele pegava o cortador de queijo, que nem sempre encaixava direito, deixando as fatias finas demais ou quebradas. Daí, meu pai apelava para a faca de carne, enorme. Eu era a espectadora apreensiva com o desfecho. Tal como o mágico que serra a mulher ao meio, ele deslizava a lâmina através da peça, apoiada por seu polegar. Para o meu alívio, a fatia saía meio torta, sem nenhuma gota de sangue. Tudo bem que tinha um lado mais alto do que o outro, porém, era cortada na espessura perfeita para cobrir toda a fatia do bolo que eu aguardava esfriar, ansiosamente, para não ter dor de barriga.


Sentávamos os três à mesa. Por breves instantes, tudo parecia certo, apesar de tantas imperfeições. Nem o bolo, nem a fatia de queijo, nem nós éramos perfeitos. E, como um retrato da vida, tudo acabava. Juntávamos os pratos com os farelos e seguíamos para nos perder em nossos cotidianos.

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