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O natal mais surreal

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Nesse clima de final de ano, com a programação televisiva em clima de alegria e confraternização, eu fico me sentindo ainda pior nesse meu exílio, nesse deserto cujas temperaturas mínimas (isso mesmo, mínimas), ficam em torno de 27°. Não sou ligada aos rituais da época, não vejo muito sentido. Mas sou a favor de estar com pessoas que amo, tendo muitas conversas, risadas e comilanças. Não sinto falta das ceias de Natal ao Ano Novo. Sinto falta de estar com a minha gente que ama e compreende o meu jeito bobo.  No último dia 24, minha mãe ainda tentou fazer uma ceia para “não passar em branco”, como disse ela. Teve arroz com legumes, farofa com passas (que eu catei uma a uma), um chester tão macio que a carne soltava dos ossos e, de sobremesa, um pudim de cremosidade perfeita. Apesar de todo carinho com que minha mãe temperou a comida, não passou de uma refeição gostosa. Sem desmerecer as companhias dela, do meu marido e da minha filha, mas senti falta de mais gente para comentar a r...

O que é isso?

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Mas tem que saber como funciona também!

Sensor de movimento

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Sempre fico aflita quando tenho que utilizar algum equipamento com sensor de movimento. Minha impressão é que aquilo nunca vai funcionar, por mais que eu me mexa. Não é “tecnofobia”. É que, por mais que eu me sinta inferiorizada, minha timidez faz com que eu me ache o centro das atenções. Como se todos à minha volta esperassem eu fazer alguma besteira para soltar gigantescos “Ha-ha-ha”, igual no desenho do Charlie Brown. E, como a maioria desses equipamentos está em locais públicos, dispara também meu sensor de ansiedade.  Parece que a porta eletrônica nunca vai abrir, mesmo que eu dance igual ao Mc Hammer em sua frente, indo de um lado a outro feito uma impressora matricial. Eu nunca sei o quanto devo passar minhas mãos embaixo das torneiras para que comecem a me fornecer água e também não sei por quanto tempo devo continuar me movimentando para que elas não desliguem no meio da lavagem. Ainda existem os secadores de mão, que viraram moda depois da onda ecologicamente correta de...

Quando perguntar ofende

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Falta mais de um mês para 25 de dezembro, mas a decoração natalina já chegou às vitrines e prateleiras do comércio. E começam também a aparecer algumas residências iluminadas com pisca-piscas, papais-noéis... Para mim, o Natal é uma festa tão artificial quanto seus ornamentos, um costume tão importado quanto o Halloween. É risível ver pinheirinhos de plástico borrifados com tinta branca num país tropical. E mais: em pleno sertão, quando dezembro é a época do calor mais infernal.  Sei que tem gente que acha o Natal a melhor época do ano. Tem o lance da confraternização, troca de presentes, ceia em família, etc. Só que eu também tenho direito de considerar a época chata, hipócrita, consumista. Na minha casa é que os enfeites não entram. Papai-Noel então, nunca passará de um personagem fictício e comercial para a minha filha. E se ela me perguntar se Jesus nasceu mesmo nessa data, explico que a inventaram para substituir festas pagãs.  Como quase todas as aversões que sinto, ...

Morte encomendada

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Fui acordada com os seus gritos enquanto ela era arrastada pelo beco. Eram gritos histéricos, desesperados, de quem sabia que seu destino não seria nada agradável. Depois de ouvir as súplicas por piedade não consegui mais pregar os olhos. Revirei-me na cama pensando no que ela estaria sentindo naquele momento, com os pés amarrados, carregada de qualquer jeito pelos seus membros superiores, enquanto, assustada, observava o ambiente estranho ao seu redor sem entender direito o porquê de estar ali.  Não consegui mais dormir, pensando na execução iminente da pobre vítima. Ouvi o ruído dos seus pés arranhando o balcão inox, mais alguns gritos e depois só o silêncio. “Ela morreu agora”, pensei. E a angústia cresceu ainda mais, pois eu sabia que teria que encarar o corpo sem vida. Ainda no meu quarto, não sabia o cenário que iria encontrar. Será que havia sangue espalhado? Será que ela sentiu a morte chegar aos poucos, enquanto a vida se esvaía pelo corte em seu pescoço? Foi terrível ima...

Pai para toda obra

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Ô leva eu, minha saudade... Este domingo (14), será o dia dos pais. Infelizmente, não poderei comemorar a data ao lado do meu, já que estamos separados por mais de 700 quilômetros. A vantagem é que, mesmo com grande distância física, sempre estamos próximos em coração. E as tecnologias ajudam a diminuir a saudade. Compartilhamos nossas vidas através de longas conversas por telefone, ele vê um pouco do que estou fazendo pela internet... Mas nada substitui o contato físico, que é o único remédio eficaz contra a saudade.  Meu pai e eu sempre fomos próximos, apesar de sermos bem diferentes. Quando eu era pequena, era ele quem cuidava de mim enquanto minha mãe trabalhava. Costumo dizer que tive uma criação às avessas. Meu pai era quem me dava banho, levava para a escola, para o médico, para passear, penteava meus cabelos, cortava minhas unhas e até brincava de boneca comigo. Uma das lembranças mais gostosas é quando ele me colocava para dormir, aconchegada em seu peito e canta...

De quem eram os caracóis?

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Meu pai sempre me disse que todo mundo nasce com um dom, um talento especial. Confesso que até hoje nunca descobri o meu. Penso que dom deve ser algo que você seja capaz de fazer acima da média e eu me considero mediana em tudo, para não dizer medíocre em muitas coisas.  Já tentei aprender esportes e nunca me dei bem em nenhum. Até pra correr eu tenho falta de coordenação! Para tocar instrumentos tenho certa facilidade, aprendo com bastante rapidez, mas me falta disciplina. Dançar piorou. Se não acerto respirar e correr, que dirá  movimentar braços, pernas e quadris em direções opostas. Cozinhar é uma atividade que só exerço quando estou de veneta. Faço até uns pratos gostosinhos (brigadeiro é comida, tá?), porém nada estupendo.  Mas já que toquei no assunto comida, acho que identifiquei minha habilidade. E não é comer, embora faça isso com bastante satisfação. Se eu fosse mutante, com algum poder especial, seria o de encontrar cabelos em comida. Essa, sim, é a minha ma...