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Rêmoras, urubus, hienas e babões

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Eu não me lembro de quando aprendi sobre relações ecológicas, na escola. Aquele lance dos modos de relacionamento entre seres vivos de diferentes espécies: comensalismo, mutualismo, inquilinismo, parasitismo, etc. Em que série foi eu não sei, mas tenho certeza absoluta de que faz muito tempo!  Há alguns dias, assistindo à série prematuramente cancelada The Crazy Ones (assim como a vida de seu protagonista, Robin Williams), fui lembrada do relacionamento entre as rêmoras e os tubarões, chamado comensalismo. Como os pequenos peixes se grudam com ventosas para se alimentar dos alimentos que caem da bocarra dos grandões e ainda viajam longas distâncias. Outras relações – que a Wikipedia me ajudou a recordar – são entre os seres humanos e os urubus, as hienas e os leões.  Em tempos de campanha eleitoral, podemos incluir a relação ecológica entre os políticos e os babões. Funciona bem parecido com o papel desempenhado pelas rêmoras, urubus e hienas. Arrumam um “poderoso” ...

Pelo amor é pela dor?

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Parei a alguns centímetros da garrafa que passou rolando à minha frente, caindo da calçada em uma poça de lama. Olhei para o lado e vi um garotinho, de aproximadamente dois anos, observando o trajeto da tal garrafa. Em segundos, apareceu uma mulher irada, puxando-o pelo braço. Enquanto chacoalhava e xingava o menino - que nada respondia em sua defesa, além do olhar assustado - ela cerrou o punho e simulou um soco no queixo dele, empurrando sua cabeça para trás. Segui meu caminho com aquele episódio lamentável na minha mente. A mulher não tinha aparência de miserável para que, no máximo, dois reais fizessem falta para sua existência. Ela não o machucou fisicamente, mas não deixou de ser violenta. Aí, logo me veio à cabeça toda discussão sobre a famigerada Lei da Palmada ou Lei Menino Bernardo. Fiquei imaginando como aquela mulher tratava o menino quando tinha sua privacidade garantida. Afinal, não se constrangeu em humilhar em público aquele ser pequenino, que ainda está desc...

Cultura sem pires na mão

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Aí o patrocinador, seja ele público ou privado, enche o peito para mostrar que investiu trocentos mil ou milhões na cultura. Mas como? Da maneira mais óbvia: eventos! Carnaval, Micareta, São João, Festa do Padroeiro (a parte profana, claro!), e por aí vai. Tudo com a logomarca do governo ou da empresa para aparecer bem bonito na televisão e nos anúncios em jornais e internet. Tudo colorido, estampado em tamanho generoso! Infelizmente, a realidade dos investimentos no setor cultural é a política dos eventos. Não há política organizada como um conjunto de ações voltadas para a promoção dos segmentos culturais. Muitas vezes, impera a politicagem míope do pão e circo. Os artistas e grupos por mais organizados que estejam ainda são vistos pelos possíveis patrocinadores como pedintes indesejáveis. Afinal, o que vale mesmo para promover a imagem é disponibilizar os recursos na mão de quem já tem dinheiro, como grandes astros industrializados. Por mais que os agentes culturais ar...

Material descartável

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O setor era um grande vão, organizado por divisórias de MDF. A maior parte dos funcionários pareciam clones das cunhadas gêmeas do Homer Simpson, mas sem os cigarros pendendo no canto da boca. Olhar vitrificado, expressão facial de como se tivessem acabado de engolir um remédio amargo.  A fala no ambiente era baixa, com poucas inflexões. E, ao redor, o contraste de toda alegria dos jovens estampados nos cartazes, na celebração de terem alcançado o grande triunfo do nível superior, pagando os juros colossais do Financiamento Estudantil. Aguardava na fila a minha vez de pegar o reembolso da minha matrícula. Tinha sido aprovada em primeiro lugar para o curso de psicologia. Quando prestei o vestibular, fui criticada por familiares e amigos, que julgavam bobagem eu enfrentar outra graduação. “Você deve tentar um mestrado ou um concurso público”, ouvi de alguns. Mas psicologia era algo que sempre me empolgou. Sou fascinada pelo comportamento humano, como somos bichinhos pretensios...

Educação à mesa

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Minha educação para o momento das refeições foi além dos princípios básicos de etiqueta, como não falar de boca cheia e não apoiar os cotovelos sobre a mesa. Com minha família, aprendi a norma básica na hora de comer: trate bem quem te alimenta! Tenho dois tios garçons e sempre contaram as barbaridades causadas pela falta de civilidade de clientes e o espírito vingativo dos funcionários da cozinha e afins. Humilhações e reclamações em tom esnobe muitas vezes são revidados com cuspe na comida, canudos previamente inseridos no nariz e ouvidos, bifes bem passados pelo chão e demais nojeiras arquitetadas por mentes criativas e sentimentos feridos. Antes que sua arrogância deseje lembrar àquele que te serve sobre quem está pagando pela comida, é preciso avaliar os possíveis riscos que você pode se submeter. E não adianta querer se blindar falando de profissionalismo e apelar para ameaças ao gerente ou dono do estabelecimento. E por mais que Seu Madruga tenha ensinado que “a vingança ...

Minutos de Sabedoria

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Entre as lembrancinhas do retiro da igreja estava Minutos de Sabedoria, de Carlos Torres Pastorino. O livreto azul virou febre entre a garotada, funcionava como uma espécie de oráculo. Você mentalizava uma grande questão existencial e abria em uma página qualquer. E ta-dá: Eis que a grande resposta para os todos os mistérios da sua vida era descerrada! Ah, e se a mensagem não fosse satisfatória, bastava repetir o processo até aparecer a “grande revelação” que refrigerasse sua alma. O Minutos de Sabedoria trazia uma série de lições de moral e conselhos genéricos de autoajuda sobre motivação, relações humanas, autoestima e espiritualidade. Tudo em uma linguagem simples e supérflua. Funciona muito bem para pessoas extremamente solitárias por orgulho ou por circunstância. Afinal eram só minutos de sabedoria. Horas, dias, anos e uma vida repleta de sabedoria não cabem em 288 páginas de um livro de bolso. Após mais de uma década do retiro da igreja, deparei-me com duas jovens real...

Ameaça de amor

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Quando cursava o primário, tinha um garoto na minha sala que, atualmente, poderia ser chamado de hiperativo. A criatura não parava quieta, era uma matraca disparada, não ficava quieto por 10 minutos, nem conseguia focar em nada. Era repetente, andava todo molambento, sempre suado, despenteado e ainda por cima usava óculos fundo de garrafa. Tirava péssimas notas e sempre se metia em alguma encrenca. Vira e mexe estava visitando a sala da direção por quebrar alguma coisa, responder a professora ou brigar com um colega. Algumas meninas tinham nojo dele. Uma vez, juntaram pó de borracha, restos de lápis apontado e outras melecas para jogar na cabeça do maluquinho. Eu tinha pena, pois sabia que era órfão de mãe e ficava imaginando o quanto devia doer dentro dele. Na festa do Dia das Mães, quando ainda estávamos na pré-escola, ele levou uma tia como sua figura materna e um retrato dele dentro de um pires de louça (aquelas lembrancinhas cafonas que um monte de gente fez na infância), ...