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Nosso fabuloso mundo azul

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Achei legal que vários programas da TV aberta investiram na abordagem do Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, neste dia 02 de abril. Porém, uma coisa me incomoda muito quando falam sobre Transtornos do Espectro Autista (TEA), como são tecnicamente classificados os casos de autismo: o autista vive como se tivesse seu próprio mundo. É uma leitura tão superficial quanto as matérias miojo dos jornalísticos que, em três minutos, têm a missão de nos alimentar sobre um tema tão complexo.  A cor azul escolhida para o Dia Mundial de Conscientização do Autismo é porque a síndrome é quatro vezes mais comum entre meninos que meninas. Mas no meu caso, meu mundo foi colorido de azul por uma garotinha: minha filha. E, seguindo a inspiração para seu nome, Amélie tem mostrado quanto esse mundo é fabuloso!  Gente não nasce com manual de instruções. Mesmo assim, tentamos encontrar padrões no comportamento para pregar um rótulo na criatura. Fulano é inteligente, sicrano é pr...

Você é todo mundo

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“Check-check-check-check”, é o barulho que a minha vizinha faz com a vassoura, enquanto lava a calçada. “Como sou asseada, vou deixar meu passeio um brinco”, deve pensar minha vizinha. “Vai dar até para lamber o chão”, deve imaginar, orgulhosa de seu espírito asséptico. Essa tarefa diária é cumprida com devoção. É praticamente uma beata da lavagem de calçadas. Se fosse com vassoura e balde, menos mal. Mas ela usa a mangueira, que pode gerar um gasto de até 250 litros. A mulher executa sua tarefa admirando sem pressa as ondas formadas pela pressão do jato ao bater no chão; o arco-íris formado pela luz solar atravessando as gotículas do precioso líquido que brota da mangueira; o rastro de água e sabão que vai seguindo rua abaixo, como um delgado e perfumado rio. Depois de jogar água e sabão, capricha na fricção da vassoura, jogando ainda mais água para enxaguar e mandar toda sujeira embora, junto com sua consciência ambiental. Bem que eu poderia dar um toque a minha vizinha, f...

Apenas respeito

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Isso é o cenário de uma festa? Fábrica onde 130 operárias  foram incendiadas em 8 de março de 1857. Hoje é o dia da homenagem melada, que chega enjoar. Mulher símbolo do amor, da ternura, da garra, da determinação... Já deu faz tempo! As milhões de mulheres que deram e dão a cara para bater pela luta de direitos iriam mandar enfiar flores e bombons em um lugar não muito usual. O comércio pega a data e aproveita para vender roupa, perfume, cosmético, sapato, tudo para a mulher continuar linda, no seu lugar de bibelô, divando na cara "dazinimiga", fazendo biquinho e ficando bem quietinha, deixando os machos de verdade saírem nas batalhas do dia a dia, trazendo dinheiro para dentro de casa. E ela, o biscuit delicado e comportado, que receba o seu mantenedor maquiada, arrumada e cheirosa, com os chinelos na mão e uma xícara de café quente, para depois entregar seu corpo como troféu ao seu amo. Pois se não fizer isso, ele vai procurar na rua. É DE LASCAR! O 8 de março...

Silêncio permissivo

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Após a escola, entrei no ônibus, encostei a cabeça na janela e fiquei olhando a rua. Um ponto à frente, um homem já chegou perguntando onde estava a minha mãe e se sentou ao meu lado. Ele usava um broche de plano de saúde preso e, como minha mãe trabalhava em dois hospitais, deduzi que deveria ser algum conhecido dela. Como eu estava usando o uniforme da escola, ele começou a me fazer perguntas sobre qual série eu cursava, se estava indo bem nos estudos e pediu o número do meu telefone. Eu dei, afinal, como ele perguntou por minha mãe, deveria querer falar com ela. Depois, quis saber se eu estava namorando e se meus pais me deixavam namorar. Comecei a achar o rumo da conversa meio esquisito. Então ele disse que eu era muito bonita e poderia namorar escondido.  Os galanteios que ele me fazia não soavam como elogios. Ao invés de me enaltecer, eu ficava ainda mais constrangida. Então, foi a vez de eu perguntar ao estranho de onde ele conhecia minha mãe. Ele me perguntou o n...

Mulher-objeto

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Assim que o motorista deu partida no motor, formou-se o bolo de gente na porta do ônibus, com cotovelos nervosos, prontos para tirar quem quer que fosse do caminho. Com o coletivo entupido, a viagem começou com o bafafá: - Ei, eu estava aí! - Não, minha senhora, o que estava aqui era uma sacola plástica.  - Mas fui eu que botei! - Só que eu paguei a passagem. A sacola não! A partir da negativa em ceder o lugar, a mulher despejou uma tonelada de impropérios e predicados não muito honrosos à moça, que continuou sentada e sem se alterar. - É muita ousadia! Todo mundo marca lugar! - Isso é errado. O lugar é de quem pagar a passagem e chegar primeiro. E outra, se a senhora não fosse tão grossa, eu poderia até levantar e ceder o lugar. Mas por causa de sua falta de educação eu vou ficar onde estou! De lá do fundo do ônibus lotado, alguém gritou um “é isso mesmo”, ratificando a explicação da moça. A mulher bufou, recitou mais uma dúzia de palavrões. ...

Rêmoras, urubus, hienas e babões

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Eu não me lembro de quando aprendi sobre relações ecológicas, na escola. Aquele lance dos modos de relacionamento entre seres vivos de diferentes espécies: comensalismo, mutualismo, inquilinismo, parasitismo, etc. Em que série foi eu não sei, mas tenho certeza absoluta de que faz muito tempo!  Há alguns dias, assistindo à série prematuramente cancelada The Crazy Ones (assim como a vida de seu protagonista, Robin Williams), fui lembrada do relacionamento entre as rêmoras e os tubarões, chamado comensalismo. Como os pequenos peixes se grudam com ventosas para se alimentar dos alimentos que caem da bocarra dos grandões e ainda viajam longas distâncias. Outras relações – que a Wikipedia me ajudou a recordar – são entre os seres humanos e os urubus, as hienas e os leões.  Em tempos de campanha eleitoral, podemos incluir a relação ecológica entre os políticos e os babões. Funciona bem parecido com o papel desempenhado pelas rêmoras, urubus e hienas. Arrumam um “poderoso” ...

Pelo amor é pela dor?

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Parei a alguns centímetros da garrafa que passou rolando à minha frente, caindo da calçada em uma poça de lama. Olhei para o lado e vi um garotinho, de aproximadamente dois anos, observando o trajeto da tal garrafa. Em segundos, apareceu uma mulher irada, puxando-o pelo braço. Enquanto chacoalhava e xingava o menino - que nada respondia em sua defesa, além do olhar assustado - ela cerrou o punho e simulou um soco no queixo dele, empurrando sua cabeça para trás. Segui meu caminho com aquele episódio lamentável na minha mente. A mulher não tinha aparência de miserável para que, no máximo, dois reais fizessem falta para sua existência. Ela não o machucou fisicamente, mas não deixou de ser violenta. Aí, logo me veio à cabeça toda discussão sobre a famigerada Lei da Palmada ou Lei Menino Bernardo. Fiquei imaginando como aquela mulher tratava o menino quando tinha sua privacidade garantida. Afinal, não se constrangeu em humilhar em público aquele ser pequenino, que ainda está desc...