O trauma do quebra-queixo


Eu como quebra-queixo, mas não compro. Gosto muito de sentir os pedacinhos de coco envolvidos no melado de açúcar, mas não saio na porta para comprar. Só compro os vendidos no supermercado, que são secos e sem graça. Desses eu não tenho medo. Sim, medo decorrente de um trauma de infância. Ih, é uma história meio longa que tentarei resumir.

Ilhéus, 1988. Todas as tardes, um garoto franzino passava equilibrando um pesado tabuleiro na cabeça, tocando o seu triângulo, vendendo quebra-queixos. Todas as tardes, eu fazia questão de comprar o doce, que custava 1 cruzado. Ele, sempre cansado, pedia água e conversava um pouco. O jovem contava sua vida sofrida, que dormia numa esteira no chão, o pai doente, a mãe falecida, irmãos pequenos... Minha mãe até deu uma bolsinha minha a ele para guardar o dinheiro, que embolava dentro do bolso e corria o risco de perder. Vida triste, igual a de muitos outros pobres meninos que ajudavam a completar a renda da família.

Certo dia, meu pai viajou e deixou duas notas de dinheiro novíssimas. Eram verdes e traziam um maestro regendo uma orquestra. Eu perguntei à minha mãe de quem era aquele dinheiro e ela disse que era nosso. Pensei: “uma nota minha e outra dela”. Peguei a minha parte - que eu não conhecia o valor - e guardei em uma caixinha.

Na tarde seguinte, o tilintar do triângulo anunciou a passagem do jovem vendedor de quebra-queixos. Corri até minha caixinha, peguei o meu dinheiro novo e chamei o rapazinho. Ele, prontamente, entregou-me o doce e foi embora. Dessa vez, não pediu água. Acho que estava mais descansado.

Depois de me deliciar com o doce, minha mãe perguntou onde eu tinha arrumado o dinheiro. Respondi que era o verde que ela tinha dito ser meu.

- Menina, aquilo era para pagar sua escola! – disse minha genitora, enquanto colocava a mão na cabeça.

A grana precisava ser recuperada. Meu pai nem poderia sonhar com a história, senão iria subir pelas paredes de tanta raiva. Na tarde seguinte, minha mãe armou a emboscada.

No horário que o vendedor de quebra-queixos costumava passar, não ouvimos o seu triângulo. Ele atravessou a rua e passou quietinho. Minha mãe o chamou, como se fosse comprar o doce. Ele veio, todo desconfiado, arriou o tabuleiro e começou a cortar a fatia.

- Cadê o dinheiro que ela te deu ontem? – indagou minha mãe.

- Ela não me deu nada. – respondeu o rapazinho.

- Eu dei sim, um verde! – repliquei.

Nessa história de “deu não deu”, o vizinho chegou. Pegou o tabuleiro do moleque e colocou na garagem lá de casa. O auê começou. O menino sentou no chão, esperneou e disse que o pai tinha gasto o dinheiro, comprado farinha. Minha mãe mandou ele buscar o valor e ele deu calundu. Calmamente, ela entrou, ligou para o 190 e uma rádio-patrulha apareceu na porta da minha casa. Lá se foram o vendedor de quebra-queixo acompanhado pelos policiais e pelo vizinho para dar conta da grana.

Algum tempo depois, a viatura retornou. O menino, com a cara inchada de chorar, agora acompanhado pelo pai, que gozava de excelente saúde, assim como sua mãe também estava viva. O homem entregou a nota e virou a cara, nem pediu desculpas. Eu disse que o dinheiro era diferente, pois estava com aparência velha. Minha mãe explicou que o que importava era o valor, coisa que eu não tinha ideia. Hoje, sei que a nota verde valia 500 cruzados e o maestro estampado era Villa Lobos.

Depois disso, não comprei mais quebra-queixos. Os vendedores de quebra-queixo andam sempre com facas grandes e amoladas. Sei lá o quanto pode durar uma mágoa. O meu trauma eu sei que ainda vive!

Comentários

Bel disse…
MAs que menina que raciocina bem! "eles têm faca..." kkkkkkkkkkkkk
Bjooo

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