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Deixei de existir

E u só pensava em morrer. Mas tinha medo de deixar de existir. O desejo de morrer era como uma fuga dos meus fracassos. Embora com tantos sucessos, tantos tesouros invejáveis, eu me sentia uma fraude, uma mentira mal contada. Apesar de ter uma vida excelente: saúde, família, proteção, eu só queria morrer. Mas tinha medo de ir parar numa espécie de limbo, na escuridão do desconhecido. Imaginava várias formas de arrancar de mim o último suspiro. Cortar os pulsos? Não teria frieza para dilacerar minha carne lentamente. Horror a sangue. Enforcamento? A sensação desesperadora de sufocamento me freava qualquer rompante de coragem. Ou se não conseguisse ter sucesso, faltasse oxigenação no cérebro e seria condenada a vegetar, carregando a vergonha da tentativa frustrada marcada pelas sequelas. Overdose de medicamentos? Se não fosse a dose certeira e fosse parar numa UTI, intubada? Não! Resolvi me matar aos poucos. Fui me afastando lentamente do que amava. Fui me trancando na minha dor de exist...

A palavra tem poder

"Cuidado, menina! A palavra tem poder"! Minha mãe sempre me falava isso, quando eu falava que algo poderia sair errado. Era o modo dela me alertar sobre o peso de tudo aquilo que se diz. Tudo bem que vinha carregado de uma aura meio mística, tipo um encantamento capaz de atrair a energia do que foi proferido. Falar "desgraça", então…  Pior do que soltar o mais cabeludo dos palavrões. "É o nome da pelada". Embora minha mãe nunca soubesse me explicar quem era a tal da pelada nem o que faria de tão desgraçado. Hoje em dia, minha compreensão do poder da palavra vai além de se evocar sobrenaturalmente algo negativo ou positivo. A função de ser benção ou maldição está atrelada ao sentido político daquilo que se diz. Nada de política partidária, mas política de posicionamento, de ideologia, de como enxergar a si e ao outro.  A turma defensora do mundo mais chato após o politicamente correto é um excelente exemplo de como a palavra revela posicionamentos. Dia dess...

A paz

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A paz em meio ao turbilhão do tempo Quando me apresentei para entrar em exercício na Prefeitura de Ilhéus, fui perguntada sobre em qual setor gostaria de ser lotada. Respondi com muita segurança: “eu quero trabalhar”. Foram dois anos de luta, audiências com o Ministério Público Estadual, Ministério Público do Trabalho e administração municipal buscando a garantia do direito dos aprovados no Concurso Público de 2016. Diante da falta de perspectivas, foi formada uma comissão e impetrada uma Ação Popular. Para isso, precisavam de nomes representando a coletividade. Eu dei o meu, assim como outros dois colegas.  A minha nomeação não aconteceu por força da Ação Popular que versava sobre a Violação dos Princípios Administrativos nem pelo Mandado de Segurança que eu havia dado entrada. Foi a última boa notícia que consegui dar a meu pai antes de ele falecer três dias depois da publicação no Diário Oficial do Município. O clima de luto não permitiu a comemoração, mas estava feliz ...

Também quero viajar neste balão

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Até o momento em que escrevo este texto, tenho sete tatuagens. Volta e meia alguém me pergunta qual o significado de alguma delas. A primeira, feita assim que me casei em 2004, é a junção de um F e um K, bem na base das costas. Ela é bastante simples, já está meio gasta e distorcida pelas novas formas que meu corpo assumiu, mas segue com sua missão de contar a minha história, como todas as outras.  Há cerca de dois anos, conheci o trabalho da competente Dyala Lisieux, uma jovem tatuadora que montou seu estúdio em Ilhéus, o IOS Ink. De lá para cá, já fiz uma âncora cujo anete – aquele anel de cima por onde passa a corda – é um coração; umas flores feitas em um dia de promoção; uma ampulheta com um trecho da música Nada Sei (Enquanto o tempo me deixar passar); um broto de samambaia estilizado da cultura maori; uma pena de escrita e, por último, um balão colorido, que enfeita minha panturrilha direita.  Cada desenho tem seu significado. Nem que seja “vi o desenho, gost...

Nadando

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Hoje, minha preguiça foi master Tarde mais cinza do que azul. Havia muito para fazer, mas preferi me entregar ao completo ócio. Eu poderia arrumar uma desculpa: a rinite, o braço dolorido da vacina, os meus dramas existenciais, mas não. Preferi me entregar à absoluta preguiça, indolência, moleza e todos os sinônimos possíveis para a total falta de produtividade. Não queria pensar, apenas me anestesiar durante alguns pares de horas, enrolada em minha coberta, com a cortina do quarto fechada para bloquear o pouco de claridade deste dia nublado. Estava sozinha em casa. Nem as gatas tinham disposição para aconchegos e curtiam, no sofá, a preguiça particular de sua natureza felina.  Notebook ligado à tomada, sinal do wi-fi cheio, site da Netflix carregando uma comédia romântica água com açúcar escolhida por ter visto no trailer o Tituss Burguess de Unbreakable Kimmy Schmidt e a última tirinha da barra de chocolate branco. Esse era o meu mundo, o meu universo improdutivo, meu ...

Tanto barulho pelo silêncio

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Desde 2004, ganho a minha vida escrevendo. Já fiz redação para rádio, jornal, internet. Em 2011, obtive 960 na redação do Enem. E, em 2012, marquei 100 pontos no concurso da Polícia Militar da Bahia. Portanto, posso não ser a melhor escritora do mundo, mas entendo alguma coisinha sobre como produzir um bom texto.  Neste ano, fui presenteada com a grata oportunidade de ganhar minha vida ajudando os outros a escrever. Quem me abriu essa possibilidade foi o professor Emenson Silva, após nos conhecermos quando fui contratada para escrever sobre o segredo do sucesso do Curso Gabaritando. E tem sido uma incrível experiência de partilha, pois sinto que estou aprendendo muito mais do que tenho mediado.  Ao longo das aulas de redação, trabalhei com os estudantes do Pré-Enem os temas apontados pelos grandes cursos do país como os mais prováveis a cair no certame deste ano. Mais do que entregar uma redação pronta, tentei mostrar maneiras de extrair ideias dos textos motivadore...

Gente de bem X Gente do bem

Gente de bem Faz o que quer Diz o que quer Pois tudo lhe é lícito E ouvir não lhe convém. Porque todo o resto é algo Nunca é alguém. Gente do bem Faz o que pode Diz o que deve Pois nem tudo o que é lícito Está do lado do bem. E sabe que todo mundo Merece ser alguém.